Falta civilidade

A situação hídrica paulista é muito mais grave do que se possa pensar. Somente agora o noticiário começou a se dar conta de que todo o Estado sofre as consequências da irracionalidade humana. Jornais da manhã mostram a paralisação do transporte por hidrovias, centenas de barcaças paralisadas, demissão inicial de 700 trabalhadores que faziam o sistema funcionar.

O mais grave é o atestado de ignorância e insensibilidade que a seca também evidencia: os fundos dos rios e represas estão atulhados de lixo. Garrafas pet, objetos de toda origem, mostram a insensatez humana. Estamos fazendo da Terra, que poderia ser um jardim, um depósito de nossas imundícies. É a mais escancarada prova de que nossa educação falhou. De que adianta propalar o avanço econômico, o combate à pobreza, se a indigência mental progride em paralelo?

Ainda há pouco, durante a Copa, o bom exemplo dos japoneses mereceu discretos comentários. Eles recolhiam seus próprios detritos, assim que acabavam os jogos. Aqui no Brasil, apenas engatinha-se nesse modelo, que teve modesto início no Rio de Janeiro e em Santos. Mas tudo a partir de ameaças sancionatórias. Se não onerar quem suja as vias públicas, não haverá campanha bem sucedida. Admoestar, advertir, aconselhar, rogar, nada adianta para mentes mal formadas.

E é por isso que o cenário não tranquiliza. Mesmo com a crise, as pessoas continuam a protagonizar espetáculos de desperdício. Lavam passeios, lavam carros, permanecem uma hora sob o chuveiro. E perseveram na sujeira. Lançam às ruas tudo aquilo que o consumismo irresponsável considera objeto de descarte. O papel e o plástico predominam. A seca produziu este espetáculo horripilante: a população é suja. Não sabe se comportar de maneira civilizada.

Tudo vai piorar. O próximo passo é o colapso no sistema de energia, prioritariamente sustentado pelo sistema hídrico. As indústrias, que já estão capengando, vão paralisar. E aí também os sistemas de comunicação. Ninguém vai mais conseguir tomar banho, mas, em compensação, também vai ficar sem iluminação, ar condicionado, computador, celular e tudo o mais.
Será que então, haverá tempo para retomar o juízo?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Boa educação paroquial

O Brasil já foi bem melhor do que hoje em termos de educação. Embora sem tantos recursos, sem o aparato das tecnologias da comunicação e informação, propiciava aquilo que a escola hoje tem imensa dificuldade em ofertar: educação de qualidade, não mera escolarização.

Paradoxalmente, crescem os índices de matrícula e acesso à escola formal, enquanto decresce o nível de adequada formação de caráter. Jundiaí comemora esta semana o centenário da tradicional Escola Paroquial Francisco Telles. Era muito profícua essa ideia de vincular a criança ao seu bairro, em torno à grande influência então exercida pela Igreja.

A subdivisão em paróquias reproduzia as comunidades iniciais do Cristianismo. Pretendia constituir uma célula amorável, para que ainda se pudesse dizer, como se afirmara em relação aos primeiros cristãos: “vede como se amam!”.

Meu pai, Baptista Nalini, foi aluno da Escola Paroquial. Sou fruto da Escola Paroquial, assim como a minha irmã Neusa Raquel e meu irmão precocemente falecido, João René. Só a Jane Rute é que foi para o Instituto de Educação Experimental. Mas ela tem dez anos menos do que eu. Já refletia o pensamento de outra época.

Fui muito feliz na Escola Paroquial. Minhas professoras eram freiras vicentinas, das quais guardo imensa saudade e gratidão crescente: Irmã Suzana, Irmã Verônica, Irmã Úrsula, Irmã Verona e Irmã Zélia. A diretora era a Irmã Flórida e vice-diretora a Irmã São Luís Gonzaga.

Lá estive de 1953 a 1956. Lembro-me do terço rezado em frente à gruta de Nossa Senhora de Lourdes, as missas na então Matriz do Monsenhor Doutor Arthur Ricci e até programas na Rádio Difusora nós fazíamos. Teatro amador, festivais de talentos infantis, festas juninas. Tudo ao lado de um bom aprendizado com disciplina, austeridade e amor.

Tudo passa, mas posso percorrer os jardins de minha memória. Lembrar os colegas de escola como Orlando de Jesus Moreira, Fernando Loboda, Ernestinho Chiorlin, Vicente Martin, Norberto Pastre Júnior, Francisco Calzoli, o Baeta, o Brandoli e outros tantos. Em outras classes estavam o José Carlos Bissoli, o José Armando Gáspari, o Mário Bampa.

Lembro-me do dia 24.8.1954, em que fomos de volta para casa, porque o presidente Getúlio Vargas havia praticado suicídio. Cheguei à rua 15 de Novembro e mamãe chorava: “Morreu o pai dos pobres!”. Parabéns Escola Paroquial, hoje Colégio São Vicente de Paulo! Auguro muitos outros centenários!

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

O jovem e o velho clube

Quando eu era criança, não frequentei clubes. Eles eram restritos a grupos bem definidos, de acordo com o status. Só na adolescência atentei para a delícia de um convívio em que o clube fazia parte da rotina. O Clube Jundiaiense era o local em que a minha turma se divertia.

Nunca fui esportista, para desencanto de meu pai, atleta e torcedor fanático do Santos F.C. Mas logo descobri o quão gostoso era dançar, flertar, conversar e levar uma vida de assíduo frequentador da sede da 11 de Junho e, depois, da área campestre na Estrada Velha de Campinas.

Foi no Clube Jundiaiense que comecei a namorar. Ali fazíamos as reuniões do Top Clube – Trabalho, Organização e Progresso. E depois, as do primeiro Rotaract de Jundiaí. Participei de inúmeros bailes de debutantes, alguns deles apresentando as garotas junto com a querida e hoje saudosa Cláudia Maria de Lucca, depois Parise.

Fizemos alguns shows, como o “Pobre Menina Rica”. Talentos nossos, como Delega e Giba Fraga de Novaes, Flavinho Della Serra, Mmelinho e seus “All Anthonys”, Helô Basile, Ricardo Feres Abumrad, o criativo Maninho, Eduardo de Souza Filho e tantos outros que já se foram. Tempos em que o Presidente Oswaldão, o dr. Oswaldo de Almeida Leite imperava, com o Muzaiel Feres Muzaiel diretor encarregado das “boites” do sábado à noite. com a presença de Ucho Gatica, Cláudio Luna, Maricene Costa, a Voz de Ouro ABC.

E os carnavais? Concurso de fantasias, liderados por Sônia Carletti, com o preparativo de meses na confecção de roupas que os grupos usavam nos bailes e ainda desfilavam pela Rosário e Barão. As brincadeiras dançantes, com parada na “Pauliceia” e depois todos caminhando a pé, ainda não havia a invasão automobilística e se podia voltar tranquilo para casa, sem receio de assaltos e outros sustos.

O Clube Jundiaiense faz 70 anos! Quase a minha idade! Por algumas décadas, ele me fez muito feliz. De certo, continuará a fazer felizes outros jovens e as crianças que eles fizerem nascer. Agora maior, mais provido de recursos, mas igualmente acolhedor, espaço de convívio familiar e social, fortalecedor de laços que a sociedade em geral já não consegue estabelecer numa República que teria muito a aprender com os seus clubes.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Só a verdade não passa

Tudo passa, só Deus não passa, dizia Teresa D‘Ávila, a corajosa reformadora da Ordem das Carmelitas Descalças e hoje Doutora da Igreja. Passam também os homens e suas obras perecíveis. Ninguém se dá conta de que o mundo existiu – e muito bem – sem a nossa presença e continuará a existir – talvez também muito bem – quando partirmos dele. Cedo ou tarde, esse o destino inelutável.

Perdemos recentemente três grandes intelectuais. Dois deles da Academia Brasileira de Letras: Ivan Junqueira e João Ubaldo Ribeiro. O terceiro, quase acadêmico da Paulista de Letras: Rubem Alves. Conheci superficialmente os dois primeiros. O terceiro, só de leitura. Mas procurei investigar suas obras assim que soube da precoce despedida.

Afinal, aos 73 anos alguém é considerado ainda em plena fruição de suas capacidades. Cedo para morrer. O livro “Por uma educação romântica”, da Papirus, dá uma ideia do Rubem Alves que escreveu mais de 120 outros. É uma reunião de crônicas que primeiro se publicou em Portugal e só depois no Brasil.

Mostra o educador amorável, que acredita num outro processo formador de uma cidadania apta ao exercício de seus direitos e de uma humanidade mais humana. Da apresentação se extrai uma definição de Rubem Alves: alguém que “continua a acreditar e a defender que a burrice atual das escolas e dos professores não é um erro da natureza, uma deformidade genérica, mas o resultado de uma profunda disfunção do pensamento educacional que, por isso mesmo, está ao nosso alcance corrigir”.

Eloquente a concepção de Rubem Alves sobre a escola, que ele divide entre as categorias “gaiola” ou “asas”. E explica: “Escolas que são gaiolas existem para que os pássaros desaprendam a arte do vôo. Pássaros engaiolados são pássaros sob controle. Engaiolados, seu dono pode levá-los para onde quiser. Pássaros engaiolados sempre têm um dono. Deixaram de ser pássaros. Porque a essência dos pássaros é o vôo”.

Quanta verdade nesse fragmento de uma obra consistente, substanciosa, exuberante e que precisa continuar a gerar uma atuação transformadora da educação brasileira. Rubem Alves já está no infinito, mas as suas verdades permanecerão conosco, enquanto tivermos angústia diante de uma escola que já foi melhor e que poderia ser ainda mais exitosa, se levássemos a sério suas lições.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrentonalini@uol.com.br.

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Fundo do poço

Nada mais frustrante do que rever fotos de São Paulo antiga, comparando-as com a realidade contemporânea. O centro da Capital dispõe de edifícios nobres, elaborados com estilo, fruto da excelência do trabalho de artesãos europeus que capricharam na ornamentação de prédios inspirados na renovação de Paris. Hoje, a maioria está imunda, pichada, ocupada por invasores, com seres humanos dormindo sobre os passeios, a qualquer hora do dia.

A sujeira é permanente. A sensação de insegurança fornece um cenário de “Blade Runner” dos pobres. Não é a cidade ianque do futuro, assustadora e desumana. É a contaminação de todos os espaços pela metástase do apodrecimento físico e moral. Os furtos acontecem e integram a rotina. O lixo se amontoa. Nada consegue preservar a dignidade no centro abandonado: monumentos relegados à própria sorte, templos maculados por signos da insensatez, paredes toscas erguendo-se nas antigas portas de acesso, para que a invasão não continue.

 Quem invade alega direito à moradia. Mas esse bem da vida fundamental está sendo administrado pelo governo. Tanto o Estado como o Município elaboram cadastros, procuram entregar residências àqueles que atenderam a requisitos mínimos. O invasor não segue a cronologia. Cria um direito “fora da fila”, desrespeita o antigo pretendente, não quer saber de observância mínima de um protocolo que ordena o atendimento na medida das possibilidades.

 Quando se compara a paisagem urbana paulistana de algumas décadas, notadamente aquelas do início do século passado, cotejada com o quadro atual, o primeiro sentimento é o de vergonha. Não soubemos cuidar de nossa cidade. Ela ficou invadida pela falta de senso, pela falta de cuidado, pela falta de respeito e, enfim, pela falta de amor.

 Que lição estamos a ministrar às novas gerações? O que foi feito de um passado em que ética e estética não eram antônimos, mas refletiam uma civilização nascente? Como foi que nos degradamos? O pior de tudo é que a maior parte de nós convive com essa miséria ambiental sem se dar conta dela. Acostumamo-nos com tudo. Até com o fundo do poço.

 JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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A sevidão consentida

O Estado é uma sociedade de “fins gerais”. O que significa isso? É que o Estado tem abrangência suficiente para acolher, em seu interior, as demais sociedades chamadas de “fins particulares” e, ainda, os indivíduos desvinculados de qualquer grupo. Dentro do Estado, todos devem ter a oportunidade de se desenvolverem em plenitude, atingindo os limites de suas potencialidades.

Essa é uma visão singela do Estado, nascido como instrumento posto à disposição das pessoas, para que elas não sejam impedidas de alcançar seus objetivos. Sozinho, o indivíduo é frágil. O grupo o fortalece. Mas o Estado é mais forte ainda. Para domá-lo, deve ser concebido qual mero instrumento de fazer as pessoas felizes. O Estado é sempre meio e nunca pode se converter em finalidade.

É lícito, em teoria, pensar se em alcançar um nível tal de civilização, que o Estado viesse a se tornar desnecessário. Isso quando a população adquirisse um grau adequado de autogestão, a pressupor uma comunidade capaz de conviver em harmonia, sem o freio do poder e sem o monopólio da violência exercido pelo governo. Estamos longe desse estágio. Há quem pense que tenhamos regredido. É que o Estado cresceu demais, tornou se insubstituível.

Há dependência extrema das pessoas em relação ao governo. Ele se compraz disso e estimula a servidão consentida. Nítidos os sintomas. Desapareceu o mérito. Tudo depende das relações, das indicações, do compadrio, do favoritismo, da fidelidade a algumas causas de interesse localizado. Não se prestigia o trabalho. Os direitos são usufruídos sem qualquer contraprestação. O Estado onisciente, onipotente e onipresente normatiza tudo.

Interfere em todos os aspectos da vida pessoal e o indivíduo parece confortado e feliz por não ter de investir em nada. Principalmente, investir em si mesmo. Libera se da obrigação de se responsabilizar pelas opções feitas nas eleições. Estas são decididas pelos marqueteiros, desde que haja tempo suficiente de televisão para “vender o produto”.

Daí a avidez com que se disputa um segundo ou um minuto, com total desapreço à lisura das alianças. Para um povo infantilizado, que talvez se pretenda ver a cada dia mais servil, a solução de um Estado todo poderoso é uma solução, é uma receita confortável, mas esterilizante do sonho de uma verdadeira cidadania. E sem cidadania protagonista, como implementar a Democracia Participativa prometida pelo constituinte?

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

Imagem: http://www.freeenglishsite.com/ Créditos: Rob Sinclair

Imagem: http://www.freeenglishsite.com/
Créditos: Rob Sinclair

Democracia não é bagunça

Ainda não se inventou algo melhor, como forma de governo, do que a Democracia. A fórmula “governo do povo, pelo povo e para o povo” é aquela que, em tese, atende de maneira mais adequada as expectativas da população. O ideal seria dispensar o governo. Mas para isso precisaríamos de um povo de deuses, como reconhecia Montesquieu.

Democracia e Estado de Direito praticamente se confundem. O Estado de Direito é a organização social sob o império da lei. Lei é a expressão da vontade geral. Ou “a relação necessária que se extrai da natureza das coisas”. Não é invenção humana, senão a interpretação formal de regras que presidem a natureza, sempre sábia, sempre correta.

Numa Democracia prevalece a vontade majoritária. A minoria pode tentar persuadir a maioria de que ela, minoria, é que está certa. Convencendo o adverso, até que se converta em maioria.

Integra o regime democrático a livre manifestação de opinião. Por isso o Brasil ficou esperançoso quando assistiu ao fenômeno do outono de 2013, quando parte da população saiu às ruas. Finalmente, não se perdera a capacidade de indignação. E há muito contra o que indignar-se. O Brasil de nossos sonhos ainda não é realidade. Há muito erro, muita corrupção, muita falcatrua, muita traição aos interesses legítimos do povo.

Logo se desfez a esperança, quando muitos se apropriaram das bandeiras difusas e, pior ainda, quando alguns se valeram da concentração e passaram a praticar violência. Por falta de uma política de segurança pública inteligente, vez que a estratégia cedeu espaço à inação, quando não à virulência, não houve reação compatível com o grau de incursão nos direitos alheios.

Banalizou-se o vandalismo, a destruição, a reiterada prática de vários crimes.
Isso não é manifestação democrática. A Democracia é o regime em que o monopólio da força reside exclusivamente nas mãos do Estado. Ninguém mais pode utilizar-se dela.

E é urgente a mão firme do equipamento de segurança pública para vedar a reiteração de condutas delitivas que assustam e intranquilizam a população e não contribuem para a consolidação da Democracia. Democracia é liberdade, não libertinagem. Liberdade com ordem, muito diferente de bagunça, caos, e completa perda de autoridade.

JOSÉ RENATO NALINI é presidente do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo para o biênio 2014/2015. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.