Arquivo do dia: 15 de janeiro de 2012

O que é um parente?

Parentesco, juridicamente, é uma relação civil entre pessoas por consanguinidade ou afinidade. Filho é parente de seus pais. E de seus avós. Cônjuge não é parente, no sentido estrito da lei civil. E o parentesco se conta por graus. A partir de um certo ponto, já não se é parente. Embora o nome de família seja o mesmo, haja semelhança física ou proximidade afetiva.

A consanguinidade não garante a estima recíproca. A experiência da vida e, principalmente, do foro judicial, mostra que tais laços não obrigam ao respeito, ao amor, à solidariedade. Quando entra em questão o dinheiro ou interesses financeiros, vê-se irmão a desconhecer irmão, pais deserdarem filhos. Quem não se lembra de casos recentes em que filha matou os pais e o neto matou avós, tudo para assenhorear-se da fortuna?

Um filme bastante interessante é “Parente Serpente”, de uma família italiana que parecia muito amorável. Bastou os pais idosos anunciarem que aceitariam morar com um dos filhos e houve uma reviravolta no clima. Vocês sabem como acabou a estória. Também o filme “Mamãe Faz 100 anos” é eloquente relato de como se porta a família quando se trata de arcar com responsabilidades, trabalho ou despesas.

Tudo isso para dizer que família, na verdade, é aquele grupo que se elege. Se “parente é acidente”, com a amizade não se tem o direito de errar. Se o amigo não presta, não é vergonhoso abandoná-lo e procurar outro. Amigo é aquele que você pode procurar a qualquer hora. Chegar sem avisar. Amigo de verdade é quem esteve ao seu lado quando você se viu obrigado a enterrar irmão, pai e mãe. Esse é que merece ingressar na sua família do coração.

Invocar parentesco quando nunca se viu, quando deixou de procurar a família da qual só se lembra na necessidade, é alguma coisa que não comove. Família é aquele grupo que se frequenta, que se cultiva, que se cativa. 

Nada impede o relacionamento, a cordialidade ou a polidez com qualquer pessoa. Mas não faz sentido considerar-se “familiar” quando o convívio nunca existiu ou foi abandonado antes sequer de um contato pessoal. Por isso, quem quer família, dela deve cuidar muito bem. Até por interesse. Nunca se sabe quando se vai precisar de um parente. 

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br

Ouvir, para não enlouquecer

Carlos Fuentes, festejado escritor mexicano, candidato permanente ao Nobel de literatura, esteve no Brasil há pouco. Hospedou-se no Copacabana Palace, onde residiu quando criança. Seu pai integrou o serviço diplomático do México e esteve a serviço no Brasil.

Sabe-se que o México enfrenta uma situação terrível em relação à força que o tráfico de drogas assumiu. O atual Presidente declarou guerra às máfias e, aparentemente, perdeu a batalha, embora ainda esteja em curso a cruzada. O Exército, posto a combater os traficantes, não logrou êxito. 

Fuentes, em entrevista a jornalistas brasileiros, tem uma explicação singela. Os Estados Unidos compram a droga. Têm poder de explorar esse mercado e, ainda muito ricos, sobrepujam a força mexicana para acabar com o tráfico. É o império da velha lei da oferta e da procura.

Mas o que interessa é um aspecto personalíssimo do autor entrevistado. Já perdeu dois filhos. O varão, por hemofilia. A mulher, vítima das drogas.

O repórter indagou como é que ele consegue sobreviver a essas mortes. Ele respondeu: – Escrevo e converso com meus filhos. Procuro imaginar o que eles diriam a respeito das minhas obras. Suas sugestões, comentários e críticas. Assim é que enfrento a sobrevivência após a morte da minha descendência.

Todos os que têm filhos sabem que não há dor maior do que enterrar aqueles que, presumivelmente, sepultarão os pais. A “inversão da ordem” é cruel. Os que sobrevivem à morte dos próprios filhos podem perder a razão de viver. É-lhes cortado o futuro. Faltam perspectivas para o enfrentamento das vicissitudes naturais postas no caminho de quem vive.

A resposta de Carlos Fuentes é um lenitivo para os que estão na mesma condição. Para não enlouquecer, é preciso “dialogar com os nossos mortos”. Eles só morrem, efetivamente, quando nos esquecemos deles. Não é loucura, mas sinal de lucidez, falar com quem já partiu. Aliás, é um dos caminhos para não se entregar à loucura. Não é louco aquele que se desespera por sepultar o sonho. Filhos são sonhos que podem ou não se concretizar. Mas são sonhos lindos, estimulantes como alavancas para perseverar no campo de batalha.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.