Carlos Fuentes, festejado escritor mexicano, candidato permanente ao Nobel de literatura, esteve no Brasil há pouco. Hospedou-se no Copacabana Palace, onde residiu quando criança. Seu pai integrou o serviço diplomático do México e esteve a serviço no Brasil.
Sabe-se que o México enfrenta uma situação terrível em relação à força que o tráfico de drogas assumiu. O atual Presidente declarou guerra às máfias e, aparentemente, perdeu a batalha, embora ainda esteja em curso a cruzada. O Exército, posto a combater os traficantes, não logrou êxito.
Fuentes, em entrevista a jornalistas brasileiros, tem uma explicação singela. Os Estados Unidos compram a droga. Têm poder de explorar esse mercado e, ainda muito ricos, sobrepujam a força mexicana para acabar com o tráfico. É o império da velha lei da oferta e da procura.
Mas o que interessa é um aspecto personalíssimo do autor entrevistado. Já perdeu dois filhos. O varão, por hemofilia. A mulher, vítima das drogas.
O repórter indagou como é que ele consegue sobreviver a essas mortes. Ele respondeu: – Escrevo e converso com meus filhos. Procuro imaginar o que eles diriam a respeito das minhas obras. Suas sugestões, comentários e críticas. Assim é que enfrento a sobrevivência após a morte da minha descendência.
Todos os que têm filhos sabem que não há dor maior do que enterrar aqueles que, presumivelmente, sepultarão os pais. A “inversão da ordem” é cruel. Os que sobrevivem à morte dos próprios filhos podem perder a razão de viver. É-lhes cortado o futuro. Faltam perspectivas para o enfrentamento das vicissitudes naturais postas no caminho de quem vive.
A resposta de Carlos Fuentes é um lenitivo para os que estão na mesma condição. Para não enlouquecer, é preciso “dialogar com os nossos mortos”. Eles só morrem, efetivamente, quando nos esquecemos deles. Não é loucura, mas sinal de lucidez, falar com quem já partiu. Aliás, é um dos caminhos para não se entregar à loucura. Não é louco aquele que se desespera por sepultar o sonho. Filhos são sonhos que podem ou não se concretizar. Mas são sonhos lindos, estimulantes como alavancas para perseverar no campo de batalha.
José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.
Caro Professor!
Muito lúcido e pertinente o seu texto (como sempre!).
Para mim, que sou espírita, a morte nada mais é do que a transição de um estado mais material para um menos material, pois não é na carne que se torna pó que há sentimento, pensamento, razão. Sou mãe e sei quanto doeria a “perda” de meu filho, mas o lenitivo de sabê-lo vivo faria (faz, pois sei que será assim) toda a diferença.
Para qualquer pessoa, a crença e oportunidade de falar com seus mortos como estivessem vivos (ainda que possuam dúvidas a esse respeito) mantém o equilíbrio, a sanidade. Afinal, nessa situação, entre a opção do esquecimento que protege o coração endurecendo-o e esse “conversar” que nos faz recordar que fomos, que somos seres que amam, a segunda opção é a mais compatível com aquilo que vivíamos antes da aparente perda.
Feliz de Carlos Fuentes que fez do amor e perda temporária dos seus entes queridos, um modo de continuar fazendo diferença no mundo. Pobres daqueles que morrem junto (em vida) com aqueles que a vida só mudou de dimensão.
Grande abraço!