Arquivo do dia: 22 de janeiro de 2012

A imperatriz humilhada

Continuo a falar da princesa injustiçada, Leopoldina, a primeira Imperatriz do Brasil, uma imperatriz humilhada. Sofrendo com os maus- tratos do marido, por quem era apaixonada, Leopoldina foi definhando e ninguém duvidava de que em breve deixaria de viver. Já em seu leito de morte, ditou à marquesa de Aguiar sua última carta à irmã Maria Luísa, segunda mulher de Napoleão, que então vivia na Itália. Dela se extrai: “Minha adorada mana. 

Reduzida ao mais deplorável estado de saúde e chegada ao último ponto de minha vida, no meio dos maiores sofrimentos, terei também a desgraça de não poder eu mesma explicar-vos todos aqueles sentimentos que há tanto tempo existiam impressos na minha alma. Minha mana! Não vos tornarei a ver! Não poderei outra vez repetir que vos amava e adorava. 

Pois já que não posso ter essa inocente satisfação, igual a tantas outras que permitidas me não são, ouvi o grito da vítima que de vós reclama não vingança, mas piedade e socorro de fraternal afeto para inocentes filhos que órfãos vão ficar em poder das pessoas que foram autores de minhas desgraças, reduzindo-me ao estado em que me acho, de ser obrigada a servir-me de intérprete para fazer chegar até vós os últimos rogos de minha aflita alma… 

Há quase quatro anos, minha adorada mana, como vos tenho escrito, que por amor a um monstro sedutor me vejo reduzida ao estado de maior escravidão e totalmente esquecida do meu adorado Pedro. Ultimamente acabou de dar-me a última prova de seu total  esquecimento, maltratando-me na presença daquela mesma que é a causa de todas as minhas desgraças. Muito e muito tenho a dizer-vos, mas me faltam forças para me lembrar de tão horroroso atentado que será, sem dúvida, a causa da minha morte”.

Não inventei isto. Consta de um livro de Isabel Lustosa, “D.Pedro I: Um herói sem caráter” (Cia. das Letras, 2006) e foi reproduzido em livro muito interessante: “Capitais Migrantes e Poderes Peregrinos. O caso do Rio de Janeiro”, de Bárbara Freitag, (Editora Papirus, 2009). Leopoldina morreu em 11.12.1826. José Bonifácio afirmou: “Pobre criatura! Se escapou ao veneno, sucumbiu aos desgostos”. Pois comentou-se, à época, poderia ter sido envenenada.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

A princesa injustiçada

Uma das figuras históricas negligenciadas pela História do Brasil é a da Princesa Leopoldina. A arquiduquesa austríaca Maria Leopoldina Josefina Carolina de Habsburgo era filha do Imperador Francisco I da Áustria. Diz-se que o Marquês de Marialva, embaixador de Portugal em Paris, despendeu uma fortuna para realizar a esplendorosa festa no jardim imperial de Augarten, comemorativa às bodas com o ausente Príncipe D. Pedro, filho de D. João VI.

Ela chegou ao Brasil com três damas de companhia, um capelão, algumas criadas, um bibliotecário e uma missão científica. Era uma das princesas mais cultas da Europa e falava francês, inglês, italiano e dominou o português, que aprendeu logo que acertado seu casamento. Era amiga de poetas, como Goethe, de músicos como Franz Schubert e se interessava por mineralogia, botânica e cavalos. 

Só não foi feliz porque se apaixonou por Pedro I e permaneceu no Brasil, a despeito de todas as canalhices do marido. Este era um rapaz malcriado e irresponsável, mulherengo e farrista, briguento e fanfarrão. Um visitante estrangeiro disse ter os modos de “um moço de estrebaria”. Mas isso não era o pior. Ao fazer de Domitila sua favorita, teve com ela cinco filhas, que passaram a conviver no paço real de São Cristóvão com as demais. A partir de 1822, distinguia a amada e humilhava a imperatriz. 

Chegou a usar a mesada de D. Leopoldina, concedida pela Casa de Habsburgo no contrato pré-nupcial, para comprar joias para a outra. Transformou Domitila em primeira dama de companhia da imperatriz, trazendo-a para o convívio diário no paço imperial e levando-a em viagens oficiais. Em Salvador, desfilou com a amante em público e deixou Leopoldina acomodada em um quarto dos fundos, grávida de D. Pedro de Alcântara, o futuro Pedro II.

Numa noite, Leopoldina grávida, levou um pontapé de seu amado esposo. Foi jogada de uma escadaria. Em consequência dos maus-tratos, abortou. Era um menino e o ano era 1826. A partir daí, entrou em depressão profunda, sofreu de febres inexplicáveis e começou a definhar. Não saía mais do quarto. Estava em verdadeira prisão domiciliar.
Voltarei ao tema.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.