Arquivo do dia: 30 de janeiro de 2012

Remoção não é a solução

A população marginalizada que invade áreas de risco e aquelas destinadas à preservação, pois ambientalmente vulneráveis, é uma relevante questão contemporânea. Mas isso é bem antigo. No Rio, cidade de 300 favelas, a ocupação indiscriminada dos morros que deveriam permanecer incólumes intensificou-se com a reforma urbanística do Prefeito Pereira Passos.

Inspirado em Haussmann, que transformou Paris na “Cidade Luz”, ele mandou derrubar cortiços e o material foi levado pelos pobres para as encostas. Começou a favelização. Janice Perlman, americana que pesquisou durante dez anos a marginalidade brasileira, escreveu “O Mito da Marginalidade: Favelas e Políticas no Rio de Janeiro”, em 2002. Depois de conviver com os favelados em vários núcleos, entrevistando mais de seiscentos dentre eles, ela concluiu que a remoção pura e simples não é solução. 

Isso porque 60% dos removidos ainda trabalhavam na zona sul e tinham problemas de transporte e moradia. A partir de sua acomodação em casas populares, precisavam pagar água, luz, imposto e não tinham condições de satisfazer tais obrigações. 70% dos removidos responderam que, se pudessem ter optado, jamais teriam saído da favela 4 anos antes. As relações de vizinhança e a vida em comunidade pobre, mas solidária, na antiga favela, tinham sido desmanteladas. 

É incrível como o pobre é mais solidário do que o rico. Ou aquele que, por ter dinheiro, se considera afortunado. Dinheiro, quanta vez, é mais pernicioso do que droga. Irmãos se digladiam, não se olham mais, filhos querem a morte dos pais por causa de dinheiro. A pobreza quase sempre une mais as pessoas. Quem tem pouco, ainda reparte aquilo que tem com quem nada possui. O que funcionou mesmo no Rio foi a chamada “Cruzada de São Sebastião”, liderada por D.Helder Câmara na década de 50. 

O projeto consistiu em radicar as pessoas da favela no lugar por elas escolhido. Quando os interessados participam, fica mais fácil a adaptação. O outro modelo, imposto na década de 60 por Carlos Lacerda, consistiu na erradicação da favela da praia do Pinto e na transferência da população para uma cidade nova. Exatamente a famigerada “Cidade de Deus”, que gerou um filme premiado em Cannes. Deu certo?

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

O sertão de Jundiaí

No Caderno 2 do Estadão de domingo, 15 de janeiro de 2012, Inezita Barroso falou de Jundiaí. Nossa cidade entrou na conversa – na verdade uma entrevista feita por Julio Maria – como Pilatos entrou no Credo. Ela dizia não gostar da expressão “música sertaneja”: “Criaram isso porque ficaram com vergonha do termo caipira. Sertanejo é uma figura do Nordeste, não de São Paulo. Por acaso você vai para o sertão de Jundiaí?”.

Mas o que sei é que Inezita gosta muito de Jundiaí. Por obra e mérito de uma pessoa muito querida e que perdemos há sete anos: Mariazinha Congilio. Ela era a verdadeira “Embaixatriz de Jundiaí”. Divulgou a cidade na TV, realizou inúmeras festas do Troféu Imprensa e recebia em sua casa artistas que, à época, eram “globais”.

Quem não se lembra de suas reuniões na Senador, bem próximo ao Clube Jundiaiense, com a presença de Rosamaria Murtinho, Tony Ramos, Sônia Ribeiro e Blota Júnior, Marisa “Gata Mansa”, Wanderley Cardoso, Agnaldo Rayol, Ana Rosa, Nicete Bruno e Paulo Goulart e tantos outros? Inezita era frequentadora dessas festas e sempre que fala em Jundiaí, lembra-se de nossa Mariazinha.

Mas não era apenas com artistas da TV que ela se relacionava. Ainda hoje Lygia Fagundes Telles fala da generosidade, da gentileza, da disponibilidade de Mariazinha. Se Mercedes Cruañes não tivesse morrido, poderia testemunhar o que ela fez por José Mauro de Vasconcelos. Paulo Bomfim é outra testemunha ocular, presencial e afetiva do quanto Mariazinha Congilio fez por Jundiaí. Até mesmo a sua tertúlia, hoje mantida por suas filhas Selma e Silvana, se chamava “Jundiaí”. 

A cada visita de jundiaiense ilustre ao Tribunal de Justiça, o “Príncipe dos Poetas Brasileiros”, o Decano da Academia Paulista de Letras , Paulo Bomfim, indaga quais as homenagens que foram prestadas na Terra da Uva à querida e saudosa Mariazinha Congilio.

Confesso que não fiquei sabendo de algo significativo e correspondente à importância do trabalho que Mariazinha Congílio desempenhou, espontânea e gratuitamente, com a generosidade que era só dela, para projetar o nome de Jundiaí. 

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.