Apocalipse outra vez?

É 2012 e o calendário maia prediz que o fim do mundo ocorrerá às 11h12 de 21.12.2012. Acho que é mais um alarme falso, tal como aquele divulgado às vésperas do ano 2000. À zero hora de 1º.1.2000, toda a memória informática se apagaria. Isso não aconteceu. Também não ocorreu o fim do mundo na virada do ano 999 para o ano 1000. Mas as profecias devem servir ao menos para um exame de consciência. Se a predição é frágil, ela é lembrada num estágio moral pouco benigno, para ser eufemístico. 

Há um contexto de crise e escassos horizontes de futuro, à luz de uma consciência ética. Os espanhóis costumam dizer: “a rio revuelto, ganancia de espectadores”. O que significa: se o cenário é ameaçador, ganham espaço os boatos de tragédia. Há uma sensação de se vivenciar o fim da História. O filme “2012″, de Roland Emmerich, datado de 2009, já explorou a notícia do final dos tempos. Edgar Allan Poe, no final de “A conversação de Eiros e Charmion”, escrito em 1839, também se aventurara pela instigante tradição de ficções apocalípticas que, fora do âmbito dos textos religiosos, imagina o final da humanidade em virtude de causas cósmicas.

No filme “Melancolia”, de Lars Von Trier, que muitos assistiram no ano findo, há uma espécie de Apocalipse individual, o que já surgira no filme “Sacrifício”, de Andrei Tarkovski, filme de 1986. O tema rendeu outras películas: “Contagio”, de Steven Soderbergh, “Take Shelter”, de Jeff Nichols, “Perfect Sense”, de David McKenzie, todos produzidos em 2011. Essa profusão de filmes a cuidar, de certa forma, do fim do mundo, reflete um sentimento generalizado a caracterizar a descrença no porvir.

A falência dos valores, a agonia ética, a corrupção a alastrar-se por todas as fímbrias do poder, o deboche dos maus, o conformismo dos bons, tudo contribui para o desalento e a abulia. Onde encontrar ânimo para incentivar os jovens a uma luta insana contra a quase certeza de que tudo está perdido? Que as visões apocalípticas tragam a urgência da renovação moral, sem a qual pouco importa a continuidade da espécie, se for para chafurdar na indecência e na indignidade.

José Renato Nalini é Corregedor Geral da Justiça do Estado de São Paulo, biênio 2012/2013. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Uma resposta para Apocalipse outra vez?

  1. Exatamente isso, caro Professor, as predições tem um sentido de nos dar a oportunidade de renovação de valores, mas as pessoas preferem o sensacionalismo, mais ou menos como diz na música “Condor” de Oswaldo Montenegro, “e se o planeta explodir eu quero que seja em plena manhã de domingo e que eu possa assistir…”. Tantos avisos para que modifiquemos a conduta e mesmo assim o dia 22 de dezembro de 2012 provavelmente amanheça igual a hoje. Grande abraço!

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