Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Partida gloriosa

 

José Renato Nalini

E Jundiaí perde o bispo DOM GIL ANTONIO MOREIRA. Em compensação, JUIZ DE FORA ganha o Arcebispo DOM GIL ANTONIO MOREIRA. É a lei da compensação, presente e inevitável no convívio humano. No lustro em que esteve a pastorear a Igreja Particular de Jundiaí, DOM GIL se mostrou um sacerdote cioso de seu compromisso com a verdade. Muitos não entendem que a Igreja Católica Apostólica Romana tem compromisso com Cristo, não com o Ibope.

Quando indagam – O que a Igreja ganha a manter suas posições retrógradas? – a resposta só pode ser uma: a Igreja quer ganhar almas para Cristo. Aquele que disse não ter vindo para agradar, mas para resgatar a criatura contaminada pelo pecado. Sem arrogância, mas com afabilidade, na simpatia mineira que é prudente e discreta, nosso bispo conquistou um espaço de respeito, admiração e afeto. Interessou-se pelos excluídos, sem descuidar dos privilegiados aos olhos do mundo. Investiu nas vocações e conheceu cada um dos novos operários da messe. Não se preocupou com a repercussão de atitudes que deveriam ser a regra, mas podem ser consideradas insólitas. Procedeu a rodízio nas paróquias. Sacudiu as estruturas que muitos pretendiam permanecessem estratificadas. E agora, ele mesmo parte.

Lição de quem assimila a realidade peregrina. Ninguém é habitante permanente desta terra. O lugar do ser humano é a pátria celeste. Para isso ele foi criado. Se as pessoas tivessem noção real e consciência plena dessa realidade inafastável, não lamentariam as separações nem se desesperariam ante a morte. Somos frágeis e imperfeitos, contudo. Por isso sofremos com as partidas. Mas a vida é feita de altos e baixos, dos pólos opostos que já instigavam os pré-socráticos. O que seria da alegria, não fora a tristeza? E da saúde, não fora a enfermidade? E da alvorada, não fosse o crepúsculo? O encontro com a falta do oxigênio da amizade é o que permite valorar – de maneira a mais adequada – a maravilha da atmosfera do convívio.

DOM GIL ANTONIO MOREIRA coleciona alguns signos pioneiros nesta sua passagem por Jundiaí. É o primeiro bispo que nos deixa por promoção do Santo Padre. É o primeiro que sai com vigor e desafiadora missão. A continuar o seu pastoreio, agora com redobrada expectativa. Deixa uma diocese abençoada. Que teve início santificado, pois ninguém pode duvidar da santidade de DOM GABRIEL PAULINO BUENO COUTO. E que prosseguiu privilegiada com a passagem do inefável DOM ROBERTO PINARELLO DE ALMEIDA e com o dinamismo do comunicador DOM AMAURY CASTANHO.

O retorno às alterosas permitirá a continuidade intensificada de uma atividade paralela, mas convergente com o cultivo das almas. O cultivo da história, da beleza, da cultura. Pois DOM GIL é um erudito. Faz jus a integrar qualquer silogeu de intelectuais. Tanto que integrava o Condephaat – Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do Estado de São Paulo.

Não consegui concretizar meu humilde projeto de torná-lo membro do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo, em virtude de vicissitudes internas da instituição bandeirante. Mas já o recomendei para a Academia Mineira de Letras, onde outros sacerdotes já têm assento e onde seu talento será reconhecido. JUNDIAÍ se despede de DOM GIL ANTONIO MOREIRA contristada, mas jubilosa.

O misto de orgulho e lágrimas é mais comum do que possa parecer e está presente em inúmeras passagens existenciais. Qual o pai que não chora de alegria quando seu filho nasce? E quando sua filha se casa? Ou quando uma separação transitória torna fisicamente distante uma pessoa amada?

O planeta é cada dia menor e as viagens são rotina. Ainda nos veremos muitas vezes. Ele sabe que aqui deixou amigos de verdade. Aqueles que, muito além da afeição humana, partilham da mesma inabalável crença. Não é a proximidade dos corpos a garantia única da afeição. Esta é gratuita e desconhece distâncias. Aos muitos preitos que DOM GIL recebe, permito-me adicionar a humilde e eterna gratidão do filho reconhecido que foi confortado pela presença caridosa e cristã de seu bispo, no dia mais triste de sua já longa vida. O dia em que o pastor aquiesceu a pessoalmente encomendar o corpo querido, amado, que tanta falta fez, faz e fará, da melhor mãe do mundo.

José Renato Nalini

é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br