Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A vanidade da fé

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José Renato Nalini


Se Cristo não ressuscitou, é vã minha fé, proclamou São Paulo. E isso continua a valer. O Cristianismo repousa na certeza de que Jesus ressurgiu dos mortos. Quem não aceita isso não é cristão. Não basta uma “simpatia” pelos princípios cristãos. É óbvio que alguns deles ganham universalidade. A igualdade entre as pessoas. O cristão não tem outra opção, salvo considerar cada pessoa um irmão. Todos são igualmente filhos de Deus. A fraternidade é conseqüência disso. Daí a revolução que foi o advento dessa verdade e a razão política do combate aos primeiros cristãos.  Não é preciso ser crente para reconhecer a dignidade humana.


Pelo mero fato de alguém nascer dentro desta espécie, inegável a titularidade da condição a todos atribuível. Ninguém desmerece a categoria da dignidade humana. Mesmo aqueles que praticam atos ignóbeis, a mostrar a fragilidade da matéria-prima com que todos somos fabricados. O cristão, todavia, tem outras obrigações. Além de se submeter à ordem temporal – pois a Constituição da República enfatiza esse supra-princípio da dignidade da pessoa humana – ele deve se curvar ao mandamento de mais difícil observância. É o “amar ao próximo como a si mesmo”.


Pode parecer piada falar em “amor ao próximo”, numa sociedade egoísta e hedonista, em que a regra é “puxar o tapete do outro”. A egolatria é a característica mais evidente em todos os espaços. A competição, o consumismo, o próprio interesse em primeiro lugar, tudo isso predomina no mundo que ainda se auto-denomina “cristão”, mas que não seria identificado assim por alguém que pudesse aferir a qualidade de sua conduta.


Quem é capaz de amar ao próximo incondicionalmente? Quem é que suporta o mau caráter, o chato, o contaminado, o drogado, o preso, o excluído? Quem consegue distinguir a essência humana naquela carcaça de quem escapa aos nossos padrões? Já houve tempo, dizem os Evangelhos, em que os cristãos eram identificados porque se amavam. “Vede como se amam!”.


Houve quem conseguisse assimilar a regra e vivê-la. Missão difícil, espinhosa, árdua, extenuante. Mas não impossível. Lembro-me, cada vez com freqüência maior, das lições do nosso santinho Dom Gabriel. Há quatro esferas de relacionamento que as pessoas precisam levar a sério. Primeiro, é preciso conhecer-se. Quantos há que não se conhecem? A vida impõe seu ritmo e a criatura, em lugar de se auto-determinar, de guiar-se pelo livre arbítrio, parece plugada a uma força que a impulsiona sem qualquer participação própria. Robotizada, caminha de forma insensata e sequer sabe quem é. Sem se conhecer, ninguém pode ter auto-estima. E quem não tem auto-estima, também não sabe amar.


A segunda esfera, a mais difícil, é a do amor ao próximo. Só depois de se conhecer intimamente é que alguém estará aberto para o amor.  As duas outras esferas são o relacionamento com a natureza e, finalmente, com Deus. Duas grandes dificuldades. A pouca gente ocorre que a insanidade está a comprometer a existência de vida no planeta.


O desmatamento, a poluição sob todas as formas, a produção excessiva de lixo, a contaminação do solo, da água e do ar está a envenenar este ser de vida efêmera que é chamado homem.Quem não se respeita, não consegue conviver e maltrata a natureza, também não chega a mergulhar no mistério divino. Essa a verdadeira crise da humanidade após tantos milênios e no século XXI do nascimento Daquele que ressuscitou. Pois se ele não ressuscitou, todo o cristianismo pode ser abandonado.


Noto certa dificuldade de alguns círculos em acreditar nessa verdade. Há uma arrogância, aliada à ignorância e preguiça em se aprofundar, quando muitos preferem acreditar numa “energia”, numa “força” ou em algo indeterminado que responderia às perguntas irrespondíveis. Isso não preenche a necessidade de verdadeira fé.


A mim não me basta a sensação de que “algo existe”. Continuo a crer que Deus se encarnou, viveu, sofreu, foi morto… mas ressuscitou. Isso é o que me dá esperança de conservar a individualidade e de um dia rever as pessoas amadas numa outra esfera. Por isso é que a ressurreição adquire um significado profundo e deveria servir para uma séria reflexão a respeito das questões cruciais: por que nasci, o que estou fazendo aqui, para onde vou depois da morte? São as perguntas que pouca gente se faz e que grande parte daqueles que ousam fazê-lo, não encontram resposta, porque lhes falta a graça da crença. Boa Páscoa da Ressurreição para todos!


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

 

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “A vanidade da fé

  1. O exercício da fé pode tornar o homem melhor, porém o homem sem fé e que exercita a reflexão de seus atos e busca conviver de forma harmonioza com seu semelhante e natureza, é um homem ainda melhor.

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