Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Meu pai, Euclides da Cunha

7 Comentários

José Renato Nalini


Dois mil e nove marca o centenário da morte de Euclides da Cunha. O autor de “Os Sertões” foi alvo de estudos densos, profundos e completos. A cada vez que seu nome é mencionado, lembro-me do verdadeiro culto a ele devotado por Adelino Brandão, uma saudade perene entre os amigos e a presença forte no mundo da cultura literária.


Quase tudo já se falou sobre Euclides. Para homenageá-lo, penso que seria interessante breve reflexão sobre seu papel de pai. Genitor de uma considerável prole, pouco se dedicam os euclidianistas a abordar sua conduta paterna. Um ponto de pesquisa seria a leitura de suas cartas. Há um epistolário euclidiano que não cessa de crescer. A primeira carta dirigida a seu filho Euclides Júnior, internado num colégio, é de 19.3.1908. Nela, o pai diz ter ficado contente com o propósito do filho ser bom, obediente e estudioso.

 

Depois de se confessar ansioso por saber o resultado dos exames, é direto: “Achei a tua letra pior do que no ano passado. Vê, por aí, o que são dois meses de vadiação. Eu espero, porém, que doravante terás mais juízo, para tua e nossa felicidade. Já deves estar convencido que nenhum lucro há em ser-se mau ou descuidado nos deveres. E como és inteligente, trata de ser bom, aplicado e limpo para seres verdadeiramente feliz.


Confiamos todos no teu coração, certos de que não nos farás sofrer e que cumprirás a tua promessa de um ano mais bem aproveitado. Assim também terás férias melhores e mais alegres”.


Ao receber notícia de que o filho fora bem nos exames, logo responde e confessa “verdadeira felicidade”. E acrescenta: “Agora não deves parar mais. Prossegue com abnegação. Para isto não precisas sacrificar-te. Basta que tenhas constância e método, que estudes nas horas de estudo e prestes toda a atenção nas aulas. Assim, ainda terás muito tempo para brincares e chegarás ao fim do ano com toda matéria sabida. Mas não te desvies nunca deste programa: nem um dia sem estudar! Um pouco por dia quer dizer muitíssimo por ano. A par disto não te esqueças nunca do respeito que deves aos mestres e da lealdade que deves aos teus companheiros. Assim serás um homem e terás sempre ao teu lado como o teu maior amigo teu pai”.


Nem sempre os conselhos calam fundo, contudo. Em 12 de junho de 1908, novamente se dirige ao filho, a quem chama – carinhosamente – de Quidinho: “Desejo-te felicidades e, sobretudo, que continues bem disposto a andar direitinho nos teus atos. Infelizmente ainda não tenho boas informações a teu respeito. Mas confio na tua nobreza de sentir, convencido de que farás tudo quanto puderes para não me dares desgostos. Notei que não estás na lista dos que obtiveram o banco de honra. Não importa! Continua a estudar com vontade e constância que obterás o prêmio merecido. Arma-te de boa vontade para atravessares corretamente este ano; para saíres aprovado em dezembro de modo que possas divertir-te bem durante as férias”.


No mesmo ano, agora em 13 de agosto, lamenta não poder visitar os filhos internados: Euclides Júnior, o “Quidinho”, e Solon, que leva o nome do avô materno. E diz: “Se eu fosse até aí entre outras coisas te diria o seguinte: Quero que respeites mais aos teus mestres – porque eles, aí, me representam; de sorte que não tens de envergonhar-te das repreensões que eles te dirijam. É um engano imaginares que a insubmissão seja própria de um homem verdadeiramente altivo. O homem verdadeiramente altivo é o que evita ver-se na posição de merecer uma censura. É o que deves não esquecer. E, dada a infelicidade de um erro, de que não estás livre, mesmo em virtude da tua idade, deves submeter-te às suas conseqüências. Sem esta resignação superior nunca serás um homem útil. Mas eu sei que és bastante inteligente para veres e avaliares o valor do que estou dizendo-te; e que farás o que em ti couber para satisfazer a minha vontade. Dentro de três meses estarás em férias e se andares direitinho não te faltarão aqui divertimentos que compensem os teus trabalhos. Estuda, pois; esquece ressentimentos sem base; respeita aos teus mestres; estima aos teus companheiros – de modo que sejas verdadeiramente digno do amor de tua mãe e de um abraço do teu pai”.


Um último cartão postal foi recolhido para o epistolário de Euclides da Cunha, coletado por Francisco Venâncio Filho. É de 1908, sem data. Dirigido a Euclides da Cunha Filho quando ele cursava o Colégio Anchieta, em Friburgo. Diz: “Recebi as notas pelas quais vejo que estás ‘tenente’ em português e ‘coronel’ em latim. Ficaria mais contente se se trocassem os títulos. Em todo o caso vejo que não estás perdendo o tempo. Continua. Até ao fim do ano ainda podes fazer muito. Sobretudo deves comportar-te bem. E a nossa velha aritmética? Nem um posto? Nem mesmo o de alferes? Todos bons. Abraço-te. Euclides”.

Logo no ano seguinte, Euclides da Cunha Filho matriculou-se na Escola Naval. Quando aspirante, foi assassinado pelo mesmo autor do homicídio de seu pai. Isso aconteceu em 4 de julho de 1916.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

7 pensamentos sobre “Meu pai, Euclides da Cunha

  1. Dr. Renato: apesar do fim trágico, achei muito bonito os conselhos e o acompanhamento do pai. Hoje em dia, observo que falta em alguns pais, a preocupação em orientar o respeito aos mestres e o incentivo do estudo diário. Claro, que fiquei curiosa em saber o que esse filho sentia, ou seja as cartas-resposta. Apesar de saber, que era o costume da época, as crianças estudarem em colégios internos, imagino que sentia falta dos pais. Ao mesmo tempo, apesar da distância, parece que ia interiorizando os conselhos e orientações daquele que queria o melhor para ele.

    • Cara Maria Luíza, minha fiel cúmplice de ideais:
      Fiquei impressionado com o Euclides pai. Infelizmente, ambos foram assassinados. Será que alguém reza por eles?
      Penso em mandar celebrar uma missa para Euclides em 15 de agosto, data em que o centenário de morte é celebrado.
      Obrigado e um abraço do Renato

  2. Dr. Renato:
    Achei a idéia excelente. Anotei na minha agenda, se eu puder irei a missa.Um abraço.

  3. Caro Nalini, companheiro e irmao em Cristo:
    Escrevo-lhe dos Estados Unidos, onde estou em visita a meu filho, nora e netos, por isso a falta de correcao nas palavras (a maquina e resistente a acentos e cs cedilhas). Cumprimento-o pelo artigo, que revelou, principalmente, o cuidado pela educacao dos seus filhos demonstrato por Euclides da Cunha. Quando era seminarista, tinhamos uma academia de letras no Seminario Na.Sa.das Dores, em Guaxupe (MG), denominada “Pio XII”. Meu patrono era Euclides da Cunha, cujas obras pude conhecer: a material, atraves da ponte sobre o Rio Pardo, na cidade que leva seu nome, bem proxima de Guaxupe, onde iamos constantemente;a intelectual, pela leitura de “Os Sertoes”, que foi objeto de discussoes naquela pequena e singela academia. Parabens pela ideia de reviver em seu blog, sempre escrito com inteligencia, um mestre na arte de escrever. Se puder, tambem irei na missa programada para agosto. Um forte e saudoso abraco.Ate mais. Antonio Marson.

    • Querido Marson: Que bom receber notícias suas! E saber que do Olimpo você tem tempo para ler minhas elucubrações. Então você também tem espírito acadêmico! Que bom. Aviso você da missa.
      Abração do Nalini

  4. Dr Renato,
    Estava pesquisando na internet e achei seu blog. gostaria de compartilhar uma crônica publicada n’O Estado de São Paulo e assinada pelo “vidente” Euclides.
    Por favor, acesse o endereço abaixo e leia:
    http://www.mongue.org.br/blongue/?p=98

  5. Muito bom e exemplo de pai dado por Euclides da Cunha, este era sem duvuda um homem muito bom. A Única coisa que não entendi foi no texto chamar Euclides da Cunha Filho de Euclides Junior.

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