Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Desamor ao livro

5 Comentários

Num País de analfabetos, o livro só poderia ser desprezado. E é o que parece acontecer com frequência, malgrado as campanhas e heroicas tentativas de converter o Brasil num “país de leitores”.


Uma experiência pessoal pode ilustrar o pessimismo. Quatro irmãos de uma família tradicional, mas não abastada, passaram a vida a adquirir livros. Cada qual com uma vocação. Um sacerdote, experto em patrística e amante da mitologia grega. Um engenheiro, especialista em cálculos. Um político, afeiçoado à História. Um jurista, colecionador de obras jurídicas indispensáveis a uma boa biblioteca.

Amealharam cerca de cem mil livros. Faleceram e os sobrinhos quiseram vender a casa e destinar a biblioteca a uma instituição. Escolheram uma Academia de Letras. O presidente aceitou a oferta. Quando conseguiu reunir o acervo no espaço físico da Casa, quase foi trucidado pelos companheiros. Como ousou trazer “livros velhos” para a entidade?

Após incorporar aquilo que pôde ser salvo, começou a cruzada pela destinação digna de uma coleção formada com sacrifício. Primeiro as bibliotecas, que levaram o que interessava. Depois chamou os Seminários. Alguns sequer tiveram a curiosidade de saber do que se tratava. Organismos ligados à leitura indagavam se os livros eram “novos”. Se fossem “velhos”, não poderiam ser aproveitados.

Junto com os livros, cartas, fotografias, diplomas, diários e breviários. Missais, lembranças de primeira comunhão. A trajetória de quatro existências eruditas, de seres humanos que se devotaram à leitura e que não encontraram espaço físico e afetivo para manter os seus livros ordenados tal como conseguiram fazer durante algumas décadas.


Esse episódio evidencia o quão inferior é o estágio civilizatório em que o Brasil se encontra. Muita gente escreve, pouca gente lê. Os livros que se vendem são os didáticos ou de auto-ajuda. As casas já não têm lugar para livro. Vem aí o “kindler”, que permitirá ler numa tela de cristal milhares de obras, tal como se fora um livro. Essa coisa de papel que significava apreço à leitura caiu de moda. É objeto de desamor. Descartável, desprezível. Seu lugar é o lixo.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Desamor ao livro

  1. Dr. Renato : Apesar de toda inovação tecnológica, acredito que a melhor forma de viajar e aprender é com um bom livro. Só de imaginar que uma biblioteca dessa foi desmanchada eu fico indignada. Fiquei pensando nesses irmãos que faleceram e me coloquei no lugar deles. Que tristeza que sentiriam se soubessem Eu não tenho ciúme de relacionamentos afetivos, mas dos meus livros

  2. Dr. Renato : Apesar de toda inovação tecnológica, acredito que a melhor forma de viajar e aprender é ainda com um bom livro. Só de imaginar que uma biblioteca dessa foi desmanchada eu fico indignada. Fiquei pensando nesses irmãos que faleceram e me coloquei no lugar deles. Que tristeza que sentiriam se soubessem que aqueles livros lidos e guardados com tanto carinho poderiam ser um transtorno futuramente. Realmente é muito triste, se numa Academia de Letras, livros antigos são considerados velhos, o que pensarão em outros lugares onde livro é considerado supérfluo e a leitura algo desagradável.

    • Maria Luiza: Veja a que ponto chegamos! ainda bem que almas caridosas se encarregaram de levar os livros a bom destino. Grande abraço do Renato.

  3. Pois é meus caros…

    Essa curta narração relata a triste realidade de nosso país.

    Lamentável…

  4. Dr. Nalini, Brilhantes e tristes observações! Parabéns pelo blog.

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