Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Mentes descartáveis

8 Comentários

Noticiou-se recentemente que a Administração Gilberto Kassab se vale do concurso de quase quarenta coronéis da Polícia Militar, em funções estratégicas na gestão do município. O aproveitamento de profissionais em pleno gozo de suas faculdades, com experiência acumulada no desempenho de missão relevante, qual a da segurança preventiva, é providência salutar. O Brasil necessita de profissionais competentes, de eficiência adquirida no trabalho singular de uma corporação em que hierarquia e disciplina são levadas a sério.


A estratégia paulistana deveria surtir réplicas em outros municípios, tão carentes de quadros habituados à ordem. O desmazelo na gerência da coisa pública não é raro e uma das causas é a rotatividade das administrações, com substituição da experiência pela nomeação alicerçada em compromissos políticos. Se a Polícia Militar impede que seus coronéis continuem em atividade depois de cinco anos de comando, é conveniente permitir que o seu traquejo venha a servir em outros postos.


O mesmo deveria acontecer com os desembargadores compulsoriamente desligados da jurisdição. Aos 70 anos, magistrados com treino diuturno em interpretar o direito são abruptamente retirados de sua atividade. Pobre Brasil que dispensa a sabedoria e em nome da oportunidade aos jovens, condena à inação intelectuais nos quais investiu maciçamente. Feliz do administrador que pudesse ter ao seu lado uma dessas vocações abortadas por uma legislação ultrapassada e perdulária. Antieconômica, sim, pois com a longevidade hoje obtida, o Erário continuará a remunerar por mais de 20 anos o aposentado e o substituirá por alguém que também terá direito a vencimentos. Até por economia a lei da compulsoriedade aos 70 anos precisaria ser revista.


Não se conte com isso, porém. A juventude tem pressa de chegar aos últimos cargos da carreira. Não deixa desaparecer a “expulsória”. Enquanto isso, que pelo menos os administradores lúcidos se valham desse patrimônio intelectual hoje desprezado. Recrutem os magistrados condenados a essa inatividade forçada e constatem o privilégio que é contar com essa genialidade treinada no ofício de julgar. O País não pode se dar ao luxo de descartar mentes afiadas e especializadas em concretizar o justo.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

8 pensamentos sobre “Mentes descartáveis

  1. Dr. Renato: acho um desperdício aposentar compulsoriamente pessoas que têm muito a oferecer para a sociedade. Nas universidades federais , pelo que eu sei, professores devem se aposentar aos 70 anos. Muitos continuam orientando, mas sem remuneração. O que considero injusto. Parece que as pessoas esquecem que a média de vida da população brasileira tem aumentado e os idosos têm muito a oferecer. Não podemos esquecer que o envelhecimento traz maturidade e experiência de vida o que acrescenta muito nas decisões. Outro dia eu estava atrasada e encontrei um vizinho que tem um pouco mais de 80 anos e ele perguntou no que eu trabalhava.´Respondi que era psicóloga e advogada e ele no caminho até o Metrô deu uma aula sobre Schopenhauer que me deixou encantada. Como desprezar essa sabedoria? Os jovens devem ter oportunidades, certamente, mas não em detrimento de pessoas que produzem e muito.

  2. Caro Nalini,
    Bem oportuno e relevante o seu artigo apreciando este desperdício com a atividade humana.Senti pessoalmente toda a situação que você com a precisão e inteligência de sempre coloca para a consideração de todos, quando fui desligado compulsoriamente da jurisdição ao completar recentemente 70 anos: apto ainda ao trabalho, tendo de deixar a Magistratuda da noite para o dia (ao acordar no dia seguinte àquele marco temporal já não poderia exercer atividade profissional que sempre foi o meu ideal na vida)fui lecionar em Faculdade de Direito particular, na cidade de Santos, para onde viajo toda semana, retornando a esta Capital, onde resido com minha família, esperando, com a graça de Deus, ser útil ao meu semelhante ainda por muito tempo.
    Bom seria se houvesse outras mentes lúcidas que apreciassem a questão da aposentadoria compulsória de Magistrados com a mesma sabedoria e precisão que você.Fico por aqui e deixo para você um forte e amigo abraço.Antonio Marson

    • Meu querido Marson:
      Não acredito que você tem 70 anos! Parece um menino!
      Você tem outra missão além da Justiça humana. Continue nessa senda. E não deixe de se comunicar com quem o estima tanto, a legião na qual procuro me incluir – com sua permissão.
      Abração e não se esqueça de mim em suas orações.
      Nalini

  3. Caro e velho amigo Nalini.
    Seu artigo não me surpreendeu. É coisa de mente lúcida e vasta cultura.
    Como sabe, fui excluído da magistratura ao completar 70 anos, depois de mais de 40 de judicatura. Meu convencimento de que essa regra é absurda surgiu quando tinha meus 14 anos, época em que assumi meu primeiro emprego formal.
    No Instituto de Educação Ernesto Monte, de Bauru, onde fazia o ginásio, era costume levarem conferencistas para ajudarem na nossa formação. Um que esteve lá várias vezes foi Malba Tahan, pseudônimo de Julio Cesar de Mello e Souza. Um de seus livros, que guardo autografado, “Lendas do Povo de Deus”, traz o conto “A corda de areia”. Foi o que me impressionou sobre a sabedoria e acúmulo de experiência dos mais velhos. Comparei com meus avos.
    Para aposentadoria voluntária deve ter limite e em proporcão à contribuição. A compulsória, só por incapacidade mental ou física em casos específicos. Um país pobre e em crescimento não pode pagar dois para fazer o serviço de um, sendo o segundo menos experiente que o primeiro. Não tem lógica.
    Depois que me aposentei em dezembro último, passei a ser procurado por amigos e conhecidos das mais longínquas comarcas do interior para pegar suas causas. Por estar na quarentena, levo-os ao escritório de um amigo, mas eles impõem a condição de eu acompanhar o caso. Além disso, mantenho muitas funções na Associação Paulista de Magistrados e na Academia Pauista de Magistrados. Tais encargos não me impedem de colaborar também em trabalhos sociais e outras atividades para as quais tenho sido convocado pela minha Igreja e a municipalidade. Sem falsa modéstia, hoje está muito mais difícil organizar e cumprir a agenda, mas me sinto muito realizado. Como escoteiro, sigo o lema – “Sempre alerta para servir”.
    Fora a pressa e a ambição dos mais jovens, referidas em seu trabalho, sentimentos que nunca tive, ainda não consegui entender e aceitar a aposentadoria compulsória.
    Oxalá mais esse absurdo legislativo seja revisto antes que também percamos você.
    Um grande abraço deste amigo sincero.

    • Grande e querido amigo SILVIO:
      Você sabe o que penso a respeito e isso não é de hoje.
      O melhor seria a possibilidade de reversão.
      Não sou otimista ao constatar o nível de barbárie em que estamos ingressando rapidamente.
      Abraço do seu amigo e admirador
      Renato

  4. Nossa !!! Vocês não estão loucos não???. Querendo trabalhar mais e acho que chegar aos 70 anos já é uma dadiva de Deus. Mas entendo que no trabalho os contatos com os colegas ,com a realidade do Brasil e o espirito produtivo deve fazer muita falta e ficar em casa aposentado deve ser muito chato então. Mas entendo meu padrasto é medico e trabalha muito ainda tem 72 anos minha mãe consegue trabalhar ainda 14 horas num centro cirugico não quer parar tem 62 anos agora ontem e vi uma reportagem na rede vida que os bispos emeritos também estão com essa preocupação com os bispos estão buscando um caminho para terem atividade é interessante eu sou fâ de voc~es por quererem trabalahar mais…

  5. A vida de uma pessoa não se encerra somente no seu local de trabalho. E a família, as viagens? Quem sai na expulsória aos 70 já deve ter netos, não? E a esposa, muitas vezes somente tomando conta da casa, não merece algo do convívio?
    Discordo quando fala que são os jovens que não querem aumentar a expulsória. A rigor, é o Congresso Nacional.
    Discordo mais ainda quando fala que os jovens têm pressa de chegar aos mais altos degraus. Quem está hoje em entrância final somente chegará a desembargador depois dos 50 anos. Com essa idade vocês (escrevi V. Exa mas apaguei e troquei, espero que tenha acertado) já era juiz do Tacrim há tempos. Peço que lembre, no dia em que eu chegar, se chegar, ao cargo de substituto em segundo grau, o meu ano de nascimento, 1966. É fácil lembrar, você tinha 21 anos. Falar em pressa dos mais jovens, se for para a atual magistratura bandeirante, é injusto.

    • Caro Tadeu:
      Respeito seu ponto de vista.
      Não tenho o monopólio da verdade.
      É bom ouvir todos os argumentos.
      De qualquer forma, acho um desperdício privar aquele que quer continuar de permanecer na carreira. Para os que apreciam outras coisas, a aposentadoria voluntária está disponível. É bom atender a todos os perfis.
      Abração do
      Nalini

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