Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Meu irmãozinho

5 Comentários

Vinte anos se passaram, desde que perdi meu irmão João René. Ele tinha 39 anos, dois filhos pequenos. Morreu sem que esperássemos, deixando a família perplexa e os pais desesperados.

Meu pai nunca se conformou. Passou a visitar diariamente seu túmulo. Silente, introvertido, curtiu discretamente a sua imensa dor. Morreu menos de três anos depois. Minha mãe, de quem herdei a maior parte das características intangíveis, nunca escondeu sua aflição. Rememorou a vida do filho nos mínimos detalhes. Narrou infinitas vezes os mais triviais episódios de sua infância, adolescência, juventude e início de maturidade. Exauriu-se na relembrança de fatos, acontecimentos e casos. Chegou a folclorizar, conferiu tonalidades criativas – na riqueza de minúcias colacionadas – a uma breve existência.


Conseguiu, dessa maneira, sobreviver dezesseis anos ao filho pré-morto. Mas não houve dia em sua trajetória que deixasse de mencionar essa perda. A dor maior para quem traz à luz uma semente. A inversão da ordem natural é sempre terrível. Os pais presumem que os filhos os enterrarão. Inadmissível a aceitação do sofrimento supremo de enterrar a cria. E os irmãos? Ficamos aturdidos, estupefatos, abatidos, angustiados.


O tempo cicatriza, mas não faz sumir a chaga. Irmão é coisa íntima. Ao se enterrar um irmão, sepulta-se uma parte mesma da gente. Assimila o que significa morrer aos poucos, aquele que teve de levar o corpo de alguém com o mesmo sangue ao cemitério. Vinte anos depois, a presença do René é ainda muito intensa em meu coração.


Lembro-me dele criança – vivo, irrequieto, risonho, peralta. Diferente dos mais velhos, criados na disciplina inflexível da primeira geração peninsular brasílica. Não era com ele ganhar as medalhinhas de bom comportamento da Escola Paroquial, ostentada pelos “nerds” de então. Era simpático, bem-humorado, mas outro o seu estilo.


Conseguia do pai aquilo que os primeiros não obtinham com tanta facilidade. Vencia pela simpatia extrema. Era transparente, escancarado e convincente. Não havia quem o não considerasse excepcionalmente sedutor. Morreu antes dos 40. Hoje ainda não teria 60 anos.


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

5 pensamentos sobre “Meu irmãozinho

  1. Pingback: PAZ : JOSÉ RENATO NALINI - O MEU IRMÃOZINHO

  2. Amigo Nalini,

    Gostei muito deste texto. É agradável de se ler, assim como foram também os textos sobre o Euclides da Cunha, que já reli algumas vezes. Parabéns. Abraço.

  3. Prezado Dr. Renato Nalini,

    parabéns pelo belo texto! Fiquei emocionado!
    Abraços,
    Flávio

  4. Não pude conter as lágrimas. Não sofri ainda essa dor, mas com 4 irmãos consigo me colocar no seu lugar para, mesmo que hipoteticamente, experimentar sua dor… Belo texto que eterniza seu amor e sua sensibilidade.
    Abraços
    Di Bonetti

  5. Sempre quando “à toa” aqui, fuço das publicações antigas… aquelas de quando ainda não acompanhava tudo que o senhor sabiamente escrevia.

    AMEI essa publicação. Gosto quando o senhor escreve de ti e família. E embora triste o narrado, importante! Quem não se identifica com iguais histórias em família?!

    Tenho uma tia que há mais de 30 anos, vive a morte de seu único filho homem, falecido. Sua casa é um museu de retratos e recordações do menino. Eu espírita e amplamente sensível, quando lá entro e com ela falo, me sinto sufocada em tantas tristezas! Ela não descansa e muito menos o seu filho. Por longos anos, ele não conseguiu se libertar do sofrimento da mãe, que não entendia, que ele bem vivia em outro Plano, e o quanto não somos donos de NINGUÉM… embora venhamos mesmo para contribuirmos, um com o outro, rumo ao melhor nesta vida!

    Não há endereço errado! O tempo também é sempre calculado corretamente e por vezes, até revisto… mas sempre sem erros… Uns ficam mais… outros menos… Mas, relevante mesmo é o tempo de convivência e, tamanha gratidão a Deus por esses momentos que nos fizeram melhores como pretendido pelo Criador!

    No mais, torço para que tia tenha um neto. Penso que isso, talvez, poderia fazê-la renascer! Têm duas meninas. Mas, sua adoração são aos meninos, rs. Meu irmão, meu noivo e primos que têm a mesma idade que teria o menino dela, ela vê ele neles. Tia, sua irmã, na primeira vez que foi gestora da cidade de João Alfredo, e por ser essa irmã na época, secretária da educação no município; homenageou dando um nome a uma escola com o nome de meu primo, Marcio Xavier. Tentou fazê-lo viver ali e vê-la mais feliz… tentou… todos tentam… mas, não há muito o que fazer… ela sofre e sua filha começou a estudar a doutrina consoladora (evangelho de kardec) após ver o irmão em casa, pedindo cuidados eternos nesta vida à sua mãe. Dói a ele como a todos!

    É difícil… convivo bem com a minha partida – MORTE, mas com as dos outros… COMO VÊ-LOS? O contrário é sempre mais fácil…

    Entendo perfeitamente como necessária e confio nos planos de Deus, mas… tenho saudades! rs. Como não ser egoísta a tal ponto?! A matéria vicia neste ponto! Consigo viver sem muito coisas materiais… mas é difícil ter de conviver com a ausência FÍSICA das pessoas que nos fizeram tão bem NESTA vida! SINTO TODAS… mas, queremos sempre mais… a presença que dada a ausência, a saudade fica ainda maior e doída! MATERIALISTA E EGOÍSTA assumida neste ponto: ter a presença física/ de corpo presente quando qeremos e como em vida de todos queridos seria um sonho! Mas… é vida que segue sempre!

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