Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Meu irmãozinho 2

2 Comentários

Cinco anos mais novo, dormia no meu quarto. Eu nascera primeiro, tinha esse privilégio. Com dez anos, eu queria ler até tarde da noite. Ele queria dormir. Brigávamos por isso. Também o recriminava porque era comum tirar o suéter para entregar a uma criança com frio de quem se compadecia na rua.

Trazia para casa os pobres que encontrava e fazia minha mãe servir-lhes refeição. Eu não compreendia, então, sua inexcedível generosidade. Alertei-o de que sofreria revezes e ingratidão. O que mais tarde se verificou.

Alvo de um carinho especial e permanente por parte de minha mãe, sempre tive dificuldade em manifestar ternura. Ele, ao contrário, era beijoqueiro. Quase adulto, erguia com facilidade meu pai, segurando-o pelas pernas. Coisa que eu nunca ousara. Fazia festas, abraçava, cobria todos de beijos. Era exuberante nas manifestações de afeto.

À nossa maneira, nos adorávamos. Desentendiamo-nos, é verdade, como irmãos costumam fazer. Nada que pudesse criar um fosso intransponível em nosso relacionamento. No convívio adulto, ele me cumulou de provas sólidas de amor profundo. Éramos ambos chorões e juntos pranteamos inúmeras vezes. Eu, de maneira mais contida. Ele, da forma a mais vistosa e espontânea. Esteve ao meu lado nos momentos difíceis. Nas horas sombrias. Sabia que podia contar com ele para tudo. Seu amor era absoluto e incondicional.

Vibrava com minhas humildes vitórias. Presente sempre e em tudo, na admiração incontida de um caçula que foi treinado a agradar o primogênito. Mas que assumiu o prazer espontâneo que tirava disso. Quando nasceu o seu primeiro filho, João Otávio, pediu-me para ser o padrinho. Quis que eu fosse também padrinho da segunda filha, Ana Rita. Recusei-me, sob argumento de que, mais velho, poderia morrer logo e deixar ambos os afilhados desapadrinhados. Nunca esperei perdê-lo tão cedo.

Que pena que seus filhos não tenham conhecido a figura generosa, pura, desprendida, aberta e notável que ele foi. Mas hoje, vinte anos depois que ele partiu, são adultos que podem e têm motivos para se orgulhar desse pai sempre jovem. Tão melhor do que o irmão. Tanto assim, que logo se viu chamado a viver na eternidade e a sobreviver na lembrança dos que o amaram. 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Ambiental do Tribunal de Justiça de São Paulo, autor de “A Rebelião da Toga”, Editora Millennium, 2006. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Meu irmãozinho 2

  1. Dr. Renato:
    Que lembranças lindas! Apesar da partida precoce, puderam viver o verdadeiro amor fraterno. Brigas e disputas de irmãos na infância são naturais e ensinam a lidar com melhor estrutura na vida adulta. O senhor falou que cada um tinha o seu jeito de demonstrar afeto, mas o sentimento de amor devia ser o mesmo. Tenho certeza que apesar dos filhos, não o terem conhecido, o senhor deve ter muitas outras características dele que o faz reviver, um pouco,para os filhos na figura do tio. Um abraço.

  2. O Interior, esta vida interiorana deixa sempre um apego mais sublime na vida em familia numa ninhada os afetos vão se tornando mais profundos o modelo de vida é mais coletivo diferentemnte de hoje onde tudo quase é virtual e na maioria temos que ser vencedor nos jogos de video gaime ou até mesmo assistir o fracasso social capitalista que afasta as pessoas de seus pares devido a necessidade de sucesso seja como for ou aonde for por este mundo. Só se da conta do tempo quando ele já passou então sobra as lenbramças de um passado maravilhoso ao lado dos nossos parentes esta falta nos traz um vazio tão grande e temos que suportar e ir em frente em busca de novas afinidade com as gerações mais novas e intender isso é uma explossão de sentimentos que acaba fazendo com que pessoa como o senhor Desembargador tenha esta facilidade de falar daqueles que tanto ama isso é lindi por isso que acompanho seu blog. Um abraço do Roberto.

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