Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Tristeza do Jeca

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Jeca Tatu, personagem de Monteiro Lobato,  exprimiu a imagem do brasileiro da roça. Mesmo sabendo que “em se plantando tudo dá”, preferia aguardar as coisas acontecerem. Preguiçoso, ilustrou a propaganda do Biotônico Fontoura, estimulante para fazê-lo reagir. Lembrança da infância dos hoje sexagenários. Foi ele substituído, na modernidade, por um brasileiro pró-ativo? Alguém que, malgrado as dificuldades dos habitantes de um país periférico, tinha a coragem de assumir o controle de sua própria vida. Colaborou com essa renovação do perfil brasílico, a chegada do imigrante europeu, que veio para substituir o trabalho escravo.

Não foi só a lida agrícola que ganhou com ele. O imigrante conferiu salto qualitativo a outros misteres: o artesanato na marcenaria, nas técnicas de construção, no labor eficiente dos verdadeiros “mestres de ofício”. Muitos fizeram fortuna. Enfrentaram os preconceitos dos “quatrocentões”. Casaram-se com as brasileiras e salvaram muitas famílias da bancarrota. Para o aristocrata do império decadente, valia a regra: “Pai barão, filho indolente, neto miserável”. Querem hoje ressuscitar o mito do Jeca. É a atuação trágica dos que não sabem tutelar a natureza. Há um fosso intransponível entre a teoria e a prática. O discurso é edificante, mas, na verdade, o governo fecha os olhos ao desenvolvimento irresponsável que destroi a mata, contamina a atmosfera, polui a água e transforma o maior patrimônio dos brasileiros numa promessa frustrada.

A Medida Provisória da grilagem é uma vergonha nacional. Quem o afirma é Marina Silva, a seringalista com  história bonita que não aguentou a pressão dos dendroclastas. A Amazônia será destruída muito mais rapidamente do que se possa imaginar. A maior parte dos brasileiros, cuja atenção está no futebol, no circo televisivo e nos shows que não podem parar, não vê que sua descendência poderá nunca ver a luz do sol.

Triste Jeca, a assumir seu destino periférico, em renúncia ao papel de provedor do universo e a perfilhar ao lado dos que, cruel e impunemente, dilapidam o que não construíram, mas que sabem destruir com rapidez e insensibilidade.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Tristeza do Jeca

  1. Ao ler esse artigo, não consegui parar de pensar no descaso em algo que temos e que é cobiçado pelo mundo inteiro. É aquela história, não adianta chorar depois da morte de alguém, se não fez nada por ela , ou se maltratou a pessoa durante a vida inteira. E com o meio ambiente de uma forma geral tem sido assim, ou seja, depois não adianta chorar a falta da água, do ar, da mata ou da qualidade de vida.

  2. Seleção brasileira: qual o patrimônio nacional os brasileiros selecionaram para defender com verdadeira paixão ? Foi a camisa verde e amarela, que faz alusão a um amarelo que já está descolorido e um verde que está desbotando completamente.

    Seu texto diz tudo, caro Nalini.

    Abraço.

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