Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O vínculo Verde Cintra

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José Renato Nalini

Não resisti à tentação de vincular o “Cintra”, de Sônia Maria de Araújo Cintra, ao “Verde”, de Cesário Verde, seu objeto de dissertação junto à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP. Tive a honra de integrar a Banca Examinadora, ao lado da orientadora Profª. Raquel de Sousa Ribeiro e da Profª. Lílian Lopondo. Foi consensual o reconhecimento de que Sônia elaborou um trabalho denso, atraente e digno de figurar entre os melhores já realizados sobre a obra desse poeta.

Cesário Verde viveu apenas 31 anos: de 1855 a 1886. Seu pai explorava uma loja de ferragens à rua dos Fanqueiros e possuía uma propriedade rural chamada Linda-a-Pastora. Não era tão pequena a herdade, tanto que exportava frutas para vários países, inclusive o Brasil.

Como poeta, Cesário refletiu esse dualismo. Viveu entre a poesia e os negócios, entre a cidade e o campo, entre a realidade objetiva do mundo e o lirismo subjetivo. Enxergava poesia no comezinho, no trivial, no rotineiro. Daí a incompreensão crítica em sua era. Seu único livro, “O Livro de Cesário Verde”, foi publicado por um amigo um ano após sua morte, com edição de apenas 200 exemplares.

A leitura do trabalho de Sônia Cintra desperta um turbilhão de emoções. A partir da magia e do poder da palavra. Óbvio que o escritor vive para ser lido. A falta de leitores atormenta e mata. Mas o imponderável é que o talento não reconhecido pelos coetâneos possa subsistir e ser revisitado mais de um século depois.

É o que reforça a convicção de que se deve escrever sempre e não se preocupar com a receptividade da obra. Não se deve fazer como Kafka, a ordenar fossem queimados todos os seus escritos à sua morte. Ordem não cumprida mas que hoje também é objeto de uma polêmica. Aquele que quer destruir o que escreveu cuida de fazê-lo pessoalmente. O recado ao amigo era quase que um apelo: não destrua a minha produção!

Importante mesmo é que Sônia Cintra publique a sua dissertação, de estatura de verdadeiro doutorado. Original, fruto de intensa pesquisa, mas com imensa contribuição pessoal. Trabalho que dignifica a autora, a quem se deve render a mais honesta reverência. Com o vaticínio de que o livro conquistará leitores. Muitos mais do que ousou sonhar Cesário Verde. 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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