Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Falta polidez

7 Comentários

José Renato Nalini

Antigamente, – eu posso falar com conhecimento de causa – os pais eram os primeiros educadores. Eram eles que ensinavam o essencial para a convivência. Deles as crianças ouviam as expressões mágicas: “Por favor”, “Muito obrigado”, “Com licença”, e outras hoje igualmente esquecidas.

Os tempos são outros. Hoje ninguém cumprimenta ninguém. Ninguém pede favor. Quem toma ônibus, metrô ou adentra a um elevador, sabe que o empurra-empurra é a regra. Jovens permanecem sentados nos coletivos, enquanto pessoas idosas, carregadas de volumes, permanecem à espera de que alguma alma sensível lhes ceda um assento. 

Por que isso acontece? Por uma série de razões. A primeira é a fragmentação e falência de uma escala de valores que está sendo substituída por um verdadeiro caos axiológico. Depois, foi relegada essa missão educativa do lar, em nome de uma nova concepção do que deva ser o treinamento social da infância.

A moderna pedagogia, alavancada pela exacerbação da autonomia individual, inibiu os
pais. Eles receiam traumatizar os filhos. Todos os sintomas da falta de educação de berço são atribuídos a distúrbios psicológicos. Os avanços da biogenética sofisticam as veredas pelas quais incursionam os especialistas em comportamento infantil. Nos Estados Unidos, mais de 10% do alunado nessa faixa etária apresenta sintomas de hiperatividade e de resistência à disciplina. Veicula-se que uma percentagem considerável se predestina à criminalidade.

Para combater essa tendência, ministra-se uma droga chamada retilina, para gáudio da indústria farmacêutica. Não será uma postura comodista, lançar sobre a genética a responsabilidade da leniência na educação doméstica?  E assim vai, com as crianças “impossíveis”, os pais dizendo que não têm mais o que fazer para corrigi-los. Isso vai até onde? Será que a postura materno/paterna pode ser diferente ou se continuará nessa cultura de repasse? Os pais confiam que a escola educará seus filhos. A escola acha que isso é obrigação do lar. Tudo começa com uma falta de educação e de delicadeza. As pessoas têm vergonha de ser polidas? Um pouco mais de polidez faria mal ao convívio?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

7 pensamentos sobre “Falta polidez

  1. Dr. Renato:
    Com certeza, a polidez e a gentileza nunca ficarão fora de moda. O problema é que as pessoas não se dão conta de como a vida ficaria mais fácil, se fossem melhor educadas. Hoje li os seus artigos antes de sair casa, mas como estava atrasada não os comentei. Estava pensando no que o senhor escreveu e observando as atitudes das pessoas que encontrei no caminho: na bilheteria do Metrô eu disse ” Bom dia” e o funcionário não respondeu, agradeci, quando peguei o bilhete e a atitude foi a mesma. Dentro do trem do Metrô algumas pessoas sentam nos bancos dos idosos, e fecham os olhos e assim não ” conseguem” ver o idoso ou o deficiente visual que entra no trem. Quando eu era criança o meu avô trabalhava no Mappin e eu lembro que usava terno e chapéu. Ele era a figura mais doce e educada que já encontrei na vida. Tirava o chapéu em lugares fechados, transportes, igreja , para cumprimentar as senhoras e etc. Hoje as pessoas usam os bonés em todos os lugares, inclusive dentro da sala de aula e ainda colocam os pés nos bancos sem o menor constrangimento. A grande maioria das crianças não têm o menor respeito pelos mais velhos, ou seja, há uma crise. Sei que alguns psicólogos, por um tempo, achavam que a criança deveria ser criada com mais liberdade, mas as coisas se confundiram. Liberdade, não significa ser mal educado, desrespeitoso e os pais têm a obrigação de colocar limites, pois quem sofrerá futuramente são os próprios filhos, quando tiverem perdidos nesse mundo de desrespeito.

  2. Dr., creio que a crise sobre sobre educação não é familiar ou social: é, de fato, pessoal. Ninguém parece mais interessado em exercer as funções que lhe são inerentes, ter a idade que tem ou viver com o que se pode: é a busca incessante do hedonismo a qualquer custo. Poucos querem ser efetivamente pais, pois a maternidade/paternidade exige um natural amadurecimento, difícil para quem quer ser sempre jovem ou namorar os amigos dos filhos. Menos ainda querem crescer, sair de casa e pagar as próprias contas. E nesse imbróglio, todos se recusam a obedecer as regras mínimas de convivência, a delicadeza das regras de educação, em prol de não cederem nem mais um centímetro do pouco que já angariam. E quando não dá para explicar a falta absoluta de educação, sempre dá para jogar a culpa na hiperatividade, nos compromissos do dia-a-dia. É como eu sempre digo: está difícil explicar o que é a vida para meu filho de cinco anos.

  3. Só para ilustrar o brilhante artigo, escutei essa na escola do meu filho: uma mãe, esbaforida e mal-criada, com o uniforme da criança na mão, e o menino em pijamas na outra, bradando (sem ao menos o anterior e necessário “bom dia, mestre”) à professora: “Veja se você (!) consegue colocar o uniforme nele, porque eu não consegui!”. Sabiamente, o monge pega a criança, a conduz até o vestiário e diz: “Querido, coloque seu uniforme, pois ninguém vai fazer por você o que é sua obrigação”. Em CINCO minutos o menino volta uniformizado, e a mãe, horrorizada com o comando firme e amoroso do religioso.

    Não podemos ter medo de educar. Não podemos ter medo de cobrar dentes escovados, banho tomado, bons modos, cotovelos fora da mesa, lição feita, sono no horário certo e o cumprimento carinhoso em TODOS que merecerem nossa atenção. Nada mais lindo que uma criança feliz, que respeita todas as criaturas, que sabe amar e ser amada. Esforço-me, às vezes com lágrimas e suor, para fazer do meu pequeno um homem honrado, não um eterno campeão em tudo. E não quero que ele seja apenas o filho da futura juíza: que ele continue sendo o menino que abre a porta do carro para senhoras, que cumprimenta fazineiros e desembargadores, que não desdenha os amigos e brinca com a guitarra de papelão que lhe fiz.
    Será que estamos na contramão da vida?

  4. Meu nobre o Brasil vai sofrer muito, as gerações novas estão sem sentido educacional tá na diferença entre o particular e o estadual, governo e inciativa privada trantam a educação de maneira diversa quem pode pagar tem um tratamento quem não pode se arrisca no unverso da má vontade então pedir que as pessoas sejam gentis também começa não só no metrô ou onibus mas também nas comarcas do estado aonde juizes, promotores e serventuarios da justiça não tem um pingo de educação com os municipis é cronico o problema são as diferenças socias explicitas na forma e convivio o prédio publico abre no meio do dia tem muita coisa para ser feita nesta sociedade com relação a educação pois nem os graduados possui boas maneiras alguém tem que alertar sobre isso.

  5. Parabéns, parece que senti um grande alívio para minhas angústias. Penso que os pais precisam assumir o seu papel e deixar a escola fazer somente a parte dela( que já não é fácil)Os pais assumiram o papel de gatão e gatinha. Chega! preciso de pais para ajudar no processo educativo e com certeza, as crianças agradeceriam muito.Estou seguindo vc no twitter. Abraços. Mariza

  6. Dr.Nalini com é gratificante constatar que este problema da falta de respeito e de educação não abala somente a mim. Fico indignada todos os dias pelas atitudes das pessoas que nos rodeiam e não são só os jovens mas também pessoas mais velhas que deveriam dar o exemplo.
    A indignação me leva a constatar que relamente a educação vem de “casa”, pois sempe orientei minhas filhas para “Tratarem os outros como querem ser tratadas” e assim as palavras básicas sempe foram a base da minha familia.
    Agradeço por eu ter tido essa educação e poder ter passado para os meus e assim quem sabe ter contribuído um pouco para esse mundo que se esqueceu do que é solidariedade, companherismo, amizade e o mais principal RESPEITO PELO PRÓXIMO.
    Abraço,
    Paula

  7. É reconfortante ver posicionamentos como este sendo expressados publicamente!!!
    A sociedade precisa de vozes que a relembrem dos reais valores que devem ser perpetrados de geração em geração – educação, gentileza, amabilidade, respeito e outros tantos que estão se perdendo dentro das famílias e consequentemente refletindo de forma tão negativa na educação de crianças e jovens.

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