Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Pobre coitado

1 comentário

A propósito do Dia do Professor, o discurso laudatório prevaleceu em alguns poucos espaços. Mais um paradoxo brasileiro: a eloquência retórica a cumular de honras aquele responsável pelo futuro da Nação e um tratamento real distanciado dos mais decantados propósitos.

O professor já teve prestígio e hoje é um ser em conflito. Se o país de fato considerasse a educação relevante, outro seria o tratamento conferido a quem escolhe ensinar, em lugar de “vencer na vida”!

A sociedade de consumo impõe os seus valores e estes passam ao largo da formação integral da infância e da juventude. O mestre é um profissional que vende algo e esse algo já não é considerado valioso. É uma mercadoria como qualquer outra e a relação que se estabelece entre o trabalhador e seu empregador é a subordinação ao contrato adesivo.

Houve época em que o professor teve autoridade. Hoje, se ele reprova é um carrasco, os alunos o tratam como empregado que deve atender à clientela e o aluno tem sempre razão. Na escola pública, elevado o número de professores que vivenciam uma situação de terror. São hostilizados, chegam a ser espancados, quando não ridicularizados pelos seus “discípulos”.

Na rede privada, precisam observar as diretrizes da empregadora. Cada vez mais burocracia, crescentes incumbências de avaliação, designação para servir como bedéis em provas alheias, obrigações que se multiplicam, reconhecimento que míngua. Há exceções, é óbvio. Mas um grande número de pessoas vocacionadas deixa o ensino porque o ambiente não parece propício, nem promissor.

Ficam na docência os que não têm outra opção ou os movidos por interesses paralelos, que não os propostos pela pedagogia. Houve tempo em que o alunado saudava o mestre no Dia do Professor e este, alma cândida, na ingenuidade de quem sabe que é um grão de areia no processo de crescimento de seus discentes, ficava todo feliz. Hoje, o calendário reserva esse dia para a “semana do saco cheio”.

É significativa a transformação nessa carreira. Não há inocentes nesse processo gradual, mas permanente, de desvalorização. Do qual não é a menor parte a remuneração nem sempre condigna, notadamente para aquele que precisa sobreviver com o que aufere com suas aulas.  

José Renato Nalini é desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Pobre coitado

  1. É sempre um prazer ler os textos do Nalini.

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