Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Cadê o menino?

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O presépio fora montado semanas antes do Natal e com a mesma estrutura de todos os anos. O vigário encarregara o sacristão e duas beatas para a  tarefa de reconstituição da cena do nascimento do Cristo. Só não concordara com aquele costume de aguardar o dia 24 à noite para colocar a imagem do bambino dentro da manjedoura. Separar o conjunto trazia seus riscos. Poderiam esconder a figura principal ou guardá-la tão bem que seria difícil encontrá-la à hora certa. Ou não era difícil que algum moleque a escondesse, só para desafiar o velho pároco. Por isso, nada de aguardar. Presépio pronto e com todos os figurantes ali, na cena bucólica, desde o início.

Pois não é que logo na segunda manhã o sacerdote deu por falta do Menino? Ficou irritado. A primeira reação foi ralhar com sua pequena equipe. Quem teria ousado afrontar suas ordens?

Pronto para chamar a modesta equipe à ordem, ouviu um choro de criança. Ainda mais essa! Quem fora a mãe desalmada que se esquecera de seu filho na Igreja, logo às primeiras horas? O mundo estava mesmo perdido.

Só que não era bem o que pensara. Sentadinho no degrau da capela do Santíssimo estava o próprio Menino Jesus! O padre não se assustou mais com Sua presença do que estranhou seu choro. Sua vida toda soubera que Jesus existia, era uma pessoa e estava viva. De corpo presente, não só na Eucaristia, mas o primeiro corpo humano – carne e osso –  naquela esfera que chamamos “céu”.

“O que foi, meu Jesus? Por que está chorando?!”, foi a indagação espontânea. O garoto levantou a cabeça, enxugou as lágrimas e respondeu: “Como não chorar, se vocês já se esqueceram do que eu vim fazer neste mundo? De que adianta repetir meu nome, autodenominar-se “cristão” e ignorar o meu exemplo? Não faz mais sentido chamar de “Natal” esta volúpia consumista e gastronômica, sem lembrar o que o meu nascimento representa!”.

Quando abriram a Igreja, encontraram o padre morto, com um sorriso nos lábios e a carregar a imagem do Menino Jesus. Justo no dia de Natal, o que iria atrapalhar o almoço da família do sacristão e das poucas paroquianas que ainda se importavam com ele.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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