Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Crianças amestradas

6 Comentários

A criança de hoje sofre mais do que a de ontem. É o que parece ocorrer de fato, nada obstante as conquistas científicas e tecnológicas facilitadoras da aventura humana sobre a face terrestre. Tudo aparentemente preordenado a tornar a vida mais fácil. E não estou pensando na criança abandonada, aquela que mais cedo colhe os frutos da imprevisão e da insensatez. 

Penso é na criança de um lar estruturado, cujos pais estão imersos naquela cultura da competição e que pretendem se realizar nos filhos. Li um artigo recente de filósofo escocês que, ao participar de uma reunião de pais na escola do filho de 6 anos, ficou sabendo que o rebento era chegado a desenhar. Já imaginou ser pai de um futuro Picasso. 
Sem perguntar para o filho, matriculou-o numa escola de artes. Para desgosto da criança, que via o desenho como diversão, não como compromisso. Algo semelhante ocorre com muitas outras crianças. A competitividade é a regra e os pais acreditam preparar sua prole para os desafios futuros se eles forem exímios polivalentes. Têm de dar conta de escolas de requisição crescente. 

Não se preocupam tanto em fazer feliz o aluno, mas em prepará-lo para vestibulares. Agora, então, com o sistema de avaliação permanente, essa vocação foi significativamente enfatizada. Mas isso é insuficiente. Ainda é preciso se devotar aos esportes, dominar outro idioma, enfronhar-se na informática. As requisições contemporâneas são crescentes e intensas. A cobrança é externa, mas não deixa de existir no próprio lar. Os pais se espelham nos filhos e querem sublimar aquilo que não conseguiram a seu tempo. 

Com o intuito de propiciar futuro melhor, atormentam a cria. Querem-na perfeita, vitoriosa, à frente de todos os da mesma faixa etária. Nem sempre se perguntam se a pessoa que estão a construir será feliz, contente consigo mesma, equilibrada e resignada com as insuficiências próprias à condição humana. Sim. 

O homem é um ser frágil, finito, efêmero. Tem mais imperfeições do que atributos. O incomensurável é o sonho. A realidade está mais próxima e palpável. Decepciona. Por isso é que a melhor lição a ser ministrada ao filho seria ensiná-lo às derrotas. Estas são certas. As vitórias costumam ser incertas.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

6 pensamentos sobre “Crianças amestradas

  1. Excelência, um rápido episódio para ilustrar a doçura que não pode ser roubada: ao sairmos de uma peça teatral da Turma da Mônica cujo tema era o aquecimento global, meu filho observou que eu estava de posse do seu livro, o “A Rebelião da Toga”. Como ele quis qual era a “história do livro” (rs), comentei quem o senhor era – um juiz (a profissão que a mamãe vai ser quando passar no concurso) preocupado com o aquecimento global (tudo numa linguagem compreensível para ele). A resposta foi típica da pureza das crianças: “Ah, então ele é um ‘juízo’ legal, né?” (entendendo-se por este o masculino de “juíza”). Mas do que ser juiz, o senhor virou sinônimo de “juízo” para meu filhinho, e isso não tem preço. Conte essa história aos seus colegas de APL Gabriel Chalita e o Carrasco: pode virar boas crônicas. Abraços jurídicos e literários

  2. Eu não fui criança mas Guliver tem razão é bom ser mortal.

  3. Dr. Nalini, Brilhante post!

  4. Dr.Renato,
    Parabéns pelos ideais que insistes em perseguir. Fé, proteção ao meio ambiente, ética, leitura, formação adequada dos Juízes…. Há caminhos mais seguros para que tenhamos uma sociedade e um mundo melhor?
    Uma pena que nem todos tenha o privilégio de conhecer seus ensinamentos…. uma pena…
    Gde abraço.

  5. em tempo:”(…) que nem todos tenham (…)”

  6. Prezado Dr. Nalini,
    Sou concursando, aprovado no 6º Concurso de Delegações de Registro de Pessoas Naturais e Tabelionato de Notas do Estado de São Paulo, conduzido com nobreza pelo senhor.
    Gostaria de parabenizá-lo pela organização e seriedade do concurso, além é claro de agradecer a sua louvável manifestação sobre a necessidade de se corrigir o modelo de remuneração do trabalho dos oficiais pelos atos gratuitos do registro Civil.
    Peço desculpas por atormentá-lo em seu blog pessoal, mas nós aprovados no concurso começamos a nos preocupar com a notícia de que foi apresentado requerimento para a inclusão da PEC 471 na Ordem do Dia do Plenário da Câmara dos Deputados.
    2/2/2010 PLENÁRIO (PLEN)
    Apresentação do Requerimento nº 6151/2010, pelo Deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), que requer, nos termos do art. 114, inciso XIV do RICD, a inclusão na Ordem do Dia do Plenário da Câmara dos Deputados da PEC nº 471-A, de 2005, do Sr. Dep. João Campos, que “dá nova redação ao parágrafo 3º do artigo 236 da Constituição

    O senhor poderia tornar disponível algum canal de comunicação para que nós aprovados manifestemos nosso interesse (ou não) na antecipação da escolha, para afastarmos essa imoralidade cogitada pelos legisladores pela única via que está ao nosso alcance? Se concordar com essa idéia, envie-me um e-mail ou entre em contato com algum outro concursando que se encontre cadastrado no e-grupo aprovados6@yahoogru pos.com.br
    Obrigado pela sua atenção

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