Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Caloteiros e ignorantes

1 comentário

É interessante um contraponto ao ufanismo reinante na Terra de Santa Cruz. Nem tudo aqui é maravilha como se propaga. Dois dados objetivos, para não correr o risco da subjetividade: a dívida pública e a educação. Cada bebê que nascer este ano de 2010, já nasce devendo R$ 10.500,00, diz Fábio Pina, assessor econômico da Federação do Comércio de São Paulo. Pois a dívida do governo já ultrapassa R$ 2 trilhões. Quem se dispõe a contribuir com essa quantia para amortizar o calote do governo brasileiro?

Para compensar, um estudo da Unesco sobre educação, realizado em 128 nações, mostra o Brasil num honroso 88º lugar. Atrás do Paraguai, Equador e Argentina. A situação piorou e o Brasil desceu 12 posições nesse ranking. O nosso país não serve de exemplo em nenhum dos itens avaliados. 18% dos jovens entre 15 e 17 anos não estudam. A gravidez na adolescência é uma das causas.

Ou seja: a ignorância vem a cavalo. Não só atrasa a vida de quem não estuda, como arremessa a uma subvida, a uma vida indigna, mais uma criatura predestinada a não participar do festival do consumo. O Brasil perdeu pontos porque a matrícula caiu, a taxa de sobrevivência na 5ª série também piorou, a reprovação, a retenção escolar e a baixa qualidade do ensino constituem uma âncora que puxa o progresso para baixo. Quase 20 mil escolas não têm energia elétrica e só 37% possuem biblioteca.

Enquanto isso, gasta-se horrores em avaliações, em propaganda e publicidade, sem investir adequadamente na formação de professores e numa injeção de consistência no ensino. O Brasil não tem a menor chance de sair da sua indigência cultural se não levar a educação a sério. Mas para isso, é preciso muito mais do que construir prédios e recrutar professores. É urgente criar a mentalidade de que estudar vale a pena.

Enquanto este for o país do jeitinho, da cunha, da indicação, do “por debaixo do pano” e enquanto a mediocridade e a malandragem prosperarem, por que a criança e o jovem vão querer se sacrificar com leitura e aprendizado? Sem isso, as crianças já vão nascer caloteiras – não há possibilidade de pagamento da dívida do governo – e vocacionadas à ignorância.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Caloteiros e ignorantes

  1. Eu não entendo porque alguns poucos insistem em estudar, investir na cultura, quando, quem está no poder, tem valores que compactuam com a perpetuação da ignorância e obtenção de ganhos através de “esperteza”, “jeitinho”(é como chamam os meios ilícitos aqui, não?).

    Seria a ética uma utopia na Terra de Santa Cruz?

    Eu estou na terceira faculdade e me sinto uma idiota.Uma total idiota.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s