Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Lutar pela amizade

1 comentário

Viver é também enredar-se em laços afetivos fortes, entre um número restrito de pessoas. Tais laços geram relações eróticas, familiares e de amizade. Todas elas situam-se num grau pré-jurídico de reconhecimento recíproco, no qual sujeitos se confirmam mutuamente em suas necessidades concretas. Portanto, como seres necessitosos. Cabe invocar a fórmula hegeliana: “ser si mesmo em um estranho”. Encaremos a amizade. O parentesco escolhido. Se “parente é acidente”, não se pode errar com o amigo, que é selecionado. Amigo que se faz, amigo que se perde.

Simone Weil já observou a respeito: “Há duas formas de amizade, o encontro e a separação. Eles são indissolúveis. Eles encerram o mesmo bem, o bem único, a amizade…Ao encerrar o mesmo bem, eles são igualmente bons; os amantes, os amigos têm dois desejos: um deles é o de amar-se mesmo que eles entrem um no outro e constituam uma unidade; o outro é o de amar-se mesmo que tendo entre si a metade do globo terrestre a sua união não sofra nenhuma diminuição”. Amigos aprovam-se mutuamente. É essa aprovação que faz da amizade o bem único, o bem tão precioso, seja na separação, seja no encontro ou reencontro.

A humilhação é a retirada ou a recusa dessa aprovação. O indivíduo sente-se como que olhado de cima, até mesmo tido como um “nada”. Privado da aprovação, é como se ele não existisse. Amizade pressupõe reciprocidade. As condições mais propícias ao reconhecimento mútuo, este reconhecimento que aproxima a amizade da justiça é a troca. Não o câmbio material, que é alimentado por uma tática do consumo que trivializa todos os afetos – “dia” disso, “dia” daquilo…  É a reciprocidade afetiva. Para isto não há regras, nem receitas. O único requisito é um coração abundante.

A abundância de coração perdoa os lapsos. Todos somos imperfeitos. É bom reconhecer-se ainda mais imperfeito que os demais. A busca aparente de equivalência impõe a subtração de julgamento. Esquecer as ofensas consiste em “deixá-las ir”. Não inscrevê-las no granito da memória. Deixar que as ondas do perdão as apaguem da areia. E continuar amigos. Sem isso, só se aumentará o crescente desencantamento do mundo.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Lutar pela amizade

  1. Meu é muito om ser seu amigo.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s