Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Promessas, promessas

1 comentário

Ano de eleições, ano de promessas. Tudo vai mudar na próxima administração. Os erros serão corrigidos. Nova e promissora etapa será deflagrada. Acredite quem quiser. Poder prometer pressupõe poder agir sobre o mundo. É a capacidade de poder imputar a si mesmo a origem dos próprios atos. Mas há dois tempos na promessa: a dimensão linguística do ato de prometer enquanto ato de discurso e a característica moral da promessa, que passa para o primeiro plano de importância. Prometer é se engajar em ação futura.

A promessa não tem apenas um destinatário, mas um beneficiário. É por causa dessa cláusula do benefício que a promessa suscita a reflexão moral. E o que o locutor promete é “fazer” ou “dar”, não experimentar emoções, paixões ou sentimentos. Como diz Nietzsche, “podem ser prometidos atos, mas não sentimentos, pois estes são involuntários”. Por isso é insuficiente a boa intenção. Quem promete, na verdade, faz duas promessas. Aquela de fazer, mas uma promessa pressuposta e anterior: aquela de manter a palavra em todas as circunstâncias. A grandeza da promessa está em sua confiabilidade.
O aspecto fiduciário é comum à promessa e ao testemunho, o qual também inclui um momento de promessa. A testemunha pede que acreditem nela. Um testemunho não existe apenas para ser certificado, mas também para ser acreditado.Só que a promessa tem uma face sombria. A traição. Poder prometer é também poder romper a própria palavra. Foi isso que Nietzsche quis dizer em “Genealogia da Moral”: “Criar um animal que possa prometer não é a tarefa primordial que a natureza deu a si mesma em relação ao homem? Não é esse o verdadeiro problema do homem?”.

Se o ato de prometer define o que há de mais humano no homem, toda desconfiança a seu respeito só pode gerar efeitos devastadores na escala da condição moral do homem em seu conjunto. Haveria receitas para se evitar a traição. Quem promete precisa de caráter para “não prometer demais”. Lembrar-se do adágio grego: “Nada em excesso”. Depois, imbuir-se de uma ética raramente encontrável no animal político: o outro conta comigo e com a fidelidade à minha própria palavra. Devo responder à sua expectativa. Atenção às promessas e, mais ainda, a quem as faz.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Promessas, promessas

  1. O pior as promessas serão pagas com o dinheiro de quem ,para quem pobres iludidos.

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