Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O homem põe…

2 Comentários

“…e Deus dispõe!” O provérbio é mais do que um truísmo. É uma verdade. Por mais que possamos nos portar como verdadeiros donos de nossa existência, ela é cada vez mais condicionada a fatores inteiramente alheios à nossa petulância. Ninguém é dono de nada. Ninguém pode garantir nada. Somos caniços frágeis. “Caniços pensantes”, como dizia Montaigne, mas toscos e quebradiços caniços.

Quem diria que um avião ocupado por todas as mais altas autoridades da Polônia fosse cair exatamente no momento da aterrissagem? Quantas pessoas saem de suas casas tranquilas para um dia normal e não conseguem voltar? Vítimas de acidentes, de violência, de balas perdidas. Daquilo que a ignorância humana chama de “acaso”, mas que para o crente está inserto nos insondáveis desígnios de Deus. Quem esperava a erupção de vulcão na Islândia e o comprometimento do tráfego aéreo planetário?

Tivéssemos consciência de nossa pequenez e talvez teríamos uma postura mais compatível com uma espécie que ainda faz questão de se considerar a única provida de razão. Primícia entre as demais espécies, a humanidade se caracteriza mais pela arrogância, pela irresponsabilidade, pelo total desconhecimento do que deva ser o comportamento de seres finitos e de curtíssima duração no lapso temporal.

Verdade que alguns, por alcançarem glórias humanas, por conquistarem poder e dinheiro, pensam estar a salvo das contingências que só atormentam os outros infelizes. Estes, os pretensos “poderosos”, são os que oferecem o espetáculo mais deprimente na aventura humana sobre o Planeta. Orgulhosos, pretensiosos, insensíveis. Caracterizam-se pela sanha destrutiva. Destroem a natureza, fazem sucumbir a dignidade dos outros seres, nunca por eles considerados “semelhantes”. Menos ainda, passíveis de serem chamados “próximos”.

Entretanto, são falíveis, vulneráveis e mortais como todos os outros. A morte, a democrática ceifadeira, é aquela que a ninguém poupa. Fuja-se dela com todas as forças, com todo o empenho e ela estará ali: quando menos se espera. Multiforme em suas exteriorizações. Pronta a sepultar o arrogante, assim como o simples e humilde de coração.

Pensar mais na morte é fator de correção de rumos. Afinal, para que orgulho, se vamos apodrecer ou virar cinza mediante combustão?


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “O homem põe…

  1. Brilhante o texto! A nossa finitude é um grande motivo para reflexão diária.

  2. Lindo texto. Parabéns!

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