Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A melhor carreira

3 Comentários

O Brasil de três mil faculdades de direito precisa se preocupar com o mercado de trabalho dos milhares de bacharéis a cada semestre expelidos pela Universidade. Mais de um milhão de advogados chegaram a passar pelo “vestibular às avessas” que é o Exame de Ordem, a prova estabelecida pela OAB – Ordem dos Advogados do Brasil, para avaliar se o egresso da faculdade tem condições de advogar. Quantos milhões são destinados a permanecer na condição de “bacharéis” e continuar a exercer a mesma atividade que os mantinha antes do curso de Direito? Parte destes procura carreira pública, à qual se ingressa por concurso.

Esta a forma adequada de se recrutar um agente preparado a exercer uma atividade estatal. Concurso é seleção que leva em conta o mérito, mas é também a mais democrática. Alia-se a exigência de conhecimento com a amplitude de acesso dos interessados: todos os que preenchem condições legais podem concorrer ao preenchimento desses claros. As carreiras mais disputadas são as tradicionais: magistratura, promotoria de justiça, polícia civil, defensoria, procuradoria. E a previsibilidade dos exames de ingresso fez com que proliferassem os cursinhos de preparação.

Pois são aprovados os que conseguem memorizar a enciclopédica pauta do conhecimento jurídico: todo o acervo da legislação, doutrina e jurisprudência. Verdade que o CNJ já produziu resoluções com a intenção de realizar uma seleção mais apurada. O essencial é arrebanhar elementos vocacionados para o exercício de qualquer das profissões jurídicas. Decorar não é saber. Mas existe uma resistência cultural à absorção de nova sistemática. O princípio da inércia é o que prevalece na esfera do direito. Por isso, os concursos ainda continuam a ser feitos de idêntica maneira, há muitos e muitos anos.

Sem que se possa aferir de outros atributos que não a capacidade mnemônica. Além dessas carreiras, é importante mostrar aos novos bacharéis que a melhor delas parece residir nas serventias extrajudiciais: tabelionatos de notas e de protestos e registros civis, de imóveis e de títulos e documentos. Dentre outras vantagens, é uma profissão que não se sujeita à aposentadoria compulsória. Voltaremos ao tema.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “A melhor carreira

  1. Professor, uma capacidade eu adquiri durante a existência, a de acreditar na vontade e na inteligência.

    Por entender que decorar não é saber, por muito tempo tive dificuldade de captar aquilo que era mera repetição e a duras penas compreendi que as vezes é preciso utilizar a memória como ponte do saber porém, sem jamais me deixar escravizar a ela.

    Essa resistência natural que possuo ao “decoreba” faz-me questionar em que carreira dentro do Direito possa eu ingressar, onde tudo aparenta ser tão dependente de lições memorizadas. Confesso ainda não ter condições de avaliar isso…

    Por tal razão tenho lido seu livro “Formação Jurídica” e estou exatamente no capítulo onde o colaborador da obra fala sobre os Cartorários.

    Admito-lhe que não me parecem muito motivadoras tais atividades de um Operador do Direito, no entanto dou o benefício da dúvida às funções correlatas, já que além de importantes, são ricas em conhecimento dentro do sistema jurídico – conto sempre com minha capacidade de adaptação a tudo e creio que compreendendo os trâmites de uma função, possa apreciar-lhe o justo valor.

    Peço a Deus inspiração para saber escolher uma área com a qual me afinize porque não ambiciono a estabilidade que garante a acomodação, nem a facilidade da riqueza que estimula a corrupção, quero viver bem fazendo o que gosto e, por gostar, fazer o melhor com dignidade, honestidade, empenho, capricho – qualidades que se conquistam quando a alma compartilha do prazer de trabalhar.

    Há de haver, entre tantos bacharéis e tantos advogados que as faculdades despejam no mercado, um espaço para alguém idealista como sou – e como há muito já passei da empolgação dos jovens recém saídos do ensino médio, acredito que tal idealismo não deve passar, por isso preocupo-me em atender tal necessidade moral dentro de um caminho honroso.

    Obviamente, caro Professor a quem já considero amigo, conto com sua ajuda. Acompanharei com atenção os próximos textos a respeito da profissão.

    Abraço!

  2. Concordo com o seu comentário e gostaria de fazer referência a seu artigo “Da Auto-análise à Criatividade” em que o senhor aborda o tema das serventias extrajudiciais.

    Na parte referente à Ética, chama a atenção a sua observação de que esta deve ser concretizada, ou seja, Ética não é uma palavra neutra, vaga, a que podemos dar o significado que quisermos.

    Já ouvi alguns comentários do tipo: Ética? Que Ética? Ética de quem? Em que lugar, em que época?

    Foi com grande satisfação que li o seu artigo, pois é muito bom saber que há pessoas no meio jurídico que sabem o real significado da palavra em comento.

    Saudações!

  3. Desembargador Renato Nalini, aprecio seus comentários acerca dos assuntos bíblicos e creio também que o senhor tem razão. Entretanto, não concordo que as faculdades de direito expelem bacharéis em direito, elas os formam e de lá deveriam sair advogados e magistrados como o senhor.

    Penso que as serventias judiciais e extrajudiciais, bem como as carreiras da polícia, magistratura, do MP e da advocacia requerem vocação e não apenas conhecimento.

    Ocorre que os cursos de graduação em direito não deveriam ser vistos como trampolim para alcançar um emprego melhor, mas com o objetivo de realização pessoal.

    Carlos Ilha

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s