Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

E agora, José?

2 Comentários

A morte de José Saramago causou universal consternação. Foi o primeiro e único autor em língua portuguesa a ganhar o Prêmio Nobel de Literatura. Láurea emblemática, a acalentar os sonhos de todos os amantes da palavra. Muitos os brasileiros que já foram cogitados: João Cabral de Mello Neto, Jorge Amado, Ferreira Gullar, Lygia Fagundes Telles. Mas foi ele quem conseguiu empolgar o imprevisível júri que atribui o mais ambicionado reconhecimento a quem elegeu por ofício a arte de escrever. Mereceu. Tem uma vida que, só por si, representaria tema de bom enredo.

Pobre, filho de rurícolas analfabetos, exerceu atividades consideradas desprezíveis. Antes de surpreender o mundo com seus romances, sua coerência política, sua coragem cívica e sua teimosia em negar a existência de Deus. Escreveu “O Evangelho segundo Jesus Cristo”, que lhe valeu a antipatia do Portugal conservador. Todavia, conforme a própria Igreja Católica lusa, em respeitável manifestação ao ensejo de sua morte, sua obra fez com que a Bíblia viesse a ser tema candente em toda a comunidade lusófona. Ainda que por vias transversas, a pessoa e a divindade de Jesus de Nazaré foram alvo de discussões, debates, artigos e teses.

O ateu Saramago ajudou a propagar o cristianismo. A análise crítica sobre a obra de Saramago merecerá comentários os mais consistentes e categorizados. Embora apreciando seus romances, notadamente “O ensaio sobre a cegueira” e “A Jangada de Pedra”, me encontrei mais nos “Diários de Lanzarote”. Eram anotações ligeiras, a contemplar assuntos do cotidiano, mas também as grandes questões existenciais. O que me levou a render a minha homenagem ao mais ilustre morador da ilha de Lanzarote, foi imaginar o seu diálogo com o autor do design inteligente.

O que terá acontecido quando chegou à eternidade e defrontou-se com o Criador? Em sua infinita bondade, o Pai terá indagado: – “E então, José? Não é você quem diz que Eu não existo?”. E ele, entre contido e acabrunhado: “Era brincadeira, Senhor!”. “Não se apoquente, xará de meu Pai adotivo! Venha cá para o meu abraço!”. E foi recebido com todas as honras na glória eterna!

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “E agora, José?

  1. Havia me esquecido que divergimos na crença de que o Criador seja Jesus… à parte disso, já que não é relevante agora, achei linda a historieta sobre como Jesus teria recebido José Saramago.

    Compreendo que será pesado por último o ateísmo ou a crença de quem quer que seja. Creio nos atos, eles é que falam pelas pessoas. Se alguém descrê mas age bem, é melhor do que aquele que diz crer mas age de modo egoístico. Para Deus, o que importa é a intenção e a ação, não as palavras vazias de compromisso.

    Desconheço a vida de Saramago, mas sei de uma coisa, ateu ou não, será recebido com o abraço que o Professor adivinhou, pois ninguém será esquecido ou rejeitado pelo Pai – basta lembrar da parábola da Ovelha Perdida.

  2. Achei sua vida amorosa interessante porque viveu um amor temporão isso é legal.

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