Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Nossa herança

1 comentário

O que deixar para os herdeiros não é preocupação de todos, mas é o de grande parte das pessoas. Aqueles que passaram a vida a acumular bens acreditam que legarão aos descendentes a certeza de uma vida tranquila. Podem ter uma certa razão. Mas hoje, a única certeza com que se pode contar é a incerteza! Não é preciso militar na minha área, a imponderável justiça humana, para assistir ao espetáculo de todos os dias: mal os pais desaparecem – ou mesmo antes disso – começam as lutas pelo patrimônio. Irmãos deixam de se falar, amizades se desfazem, aflora toda a sequela de sentimentos paralelos à partilha. Pais que pouparam durante toda a vida, se sacrificaram e deixaram de usufruir do resultado de seu trabalho, tudo em nome da família, não estão aqui para assistir à derrocada do núcleo protegido.

Aqueles que não se preocuparam com o futuro, paradoxalmente, estariam em situação mais confortável. Não se diga, com isso, que a prodigalidade seja preferível à poupança. O foco é evidenciar que o patrimônio material nem sempre é o mais importante no sentido de se conservar unida a família. Mais relevante é o patrimônio moral. O conjunto de valores que os pais transmitem à sua prole. Estes, o tempo não corrói. Não há o risco de sua cotação cair na bolsa. Raramente servem de pretexto para que irmãos se antagonizem. Este conjunto axiológico, porém, mereceu debilidade ante um fenômeno inequívoco de nossos tempos. O declínio dos valores. Estes foram suplantados por lamentável onda de mediocridade. Em lugar da honra, o dinheiro. Em lugar do brio, o interesse.

Em lugar da verdade, a aparência. Em lugar da generosidade, o egoísmo. Por aí vai. A cada atributo de virtude, corresponde hoje um vício evidenciador da queda qualitativa da humanidade. Onde foi residir a honestidade? O mérito do dever cumprido? Onde o sacrifício e a renúncia em lugar do prazer e da competição? Cada pai e mãe desta era melancólica precisaria estar munido de uma coragem hercúlea para tentar reverter a tendência de generalizado deboche da virtude. Mostrar ao filho que os bens materiais não trazem a felicidade. Ao contrário, quase sempre infelicitam irmãos que passam a se odiar, esquecendo-se de sua origem comum: o mesmo ventre materno.


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Nossa herança

  1. Professor todo seu texto me chamou muita atenção, como, aliás, me chama sempre a questão das virtudes.

    Como mãe sei bem a dificuldade que é educar, um esforço hercúleo sim, mas por que acostumamos-nos a querer tudo cada vez mais fácil, e não dá para educar filhos como se compra comida pronta, aquece no microondas ou envia um email. É um processo que demanda interesse, comprometimento, e mais que tudo, auto-conhecimento, sem o qual qualquer esforço em educar será sempre fragilizado já que palavras nunca valem o mesmo que exemplos.

    Pessoalmente, dentre tantas frases que disse, uma marcou-me mais, a que fala da verdade ‘versus’ a aparência. Há milênios o homem se aprimora em trazer o teatro dos palcos para a vida, e chegamos num ponto irônico, onde nem sempre é confortável ser verdadeiro, nem mesmo relacionar-se com este perfil de pessoa.

    Além da verdade em si não ser um prazer para todos, que acabam convenientemente preferindo enfeitar, torcer, disfarçar fatos, situações, pensamentos a ter que assumir a responsabilidade de suas escolhas, há o problema do modo como a verdade é colocada para forma.

    Verdade sem açúcar é amarga, ou, em outras palavras, quando não sabemos ser suaves, não impositivos perante a verdade (ou o que interpretamos como sendo ela) acabamos por ferir. Portanto, para evitar isso, tornou-se quase que uma regra social ter que dissimular a verdade porque não sabemos dizê-la nem ouvi-la, e assim nos tornamos vítimas do melindre.

    Não é fácil mas é possível ser verdadeiro e educar, especialmente se, embora recordando que Hércules é mitologia, descobrirmos dentro de nós a fé na força que ele possuía, a dele física, a nossa moral, e em a descobrindo, poderemos vencer qualquer desafio.

    Abraços.

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