Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Há sentido em juntar livros?

2 Comentários

Sou viciado em livros. Não resisto a adquiri-los. Também ganho muitos. Já comprei um apartamento para guardá-los. Vi-me obrigado a vendê-lo e a acomodar a biblioteca em casa. Ocasião em que doei a biblioteca jurídica para a Faculdade de Direito. Um juiz paulista do meu tempo chega a juntar ao menos um metro linear de livros por ano. Agora, com a informatização, talvez esse espaço se reduza. Mas para os idosos, nada substitui o prazer tátil do livro que se leva para a cama, para o banheiro, para as viagens. As longas esperas nos aeroportos se tornam menos angustiantes na companhia de um bom livro.

Ainda recentemente, Woody Allen foi persuadido a aderir ao formato do audiolivro e gravou quatro coletâneas de ensaios de humor escritas entre 1971 e 2007. São as antologias Getting Ever, Without Feathers, Mere Anarchy e Side Effects. Todavia, ele se arrepende de haver se rendido à contemporaneidade. Diz que aquiesceu num momento de apatia, quando estava convencido de estar com doença fatal. “Não tenho computador e tenho interesse zero por tecnologia”.

E acrescenta: “Imaginei que seria bastante fácil para mim, mas, na verdade, mostrou ser tremendamente difícil. Odiei cada minuto, lamentei ter concordado em fazê-lo”. Paulo Bomfim, que este ano completa 84, já gravou 42 poemas para Di Bonetti e elas podem ser ouvidas em seu site. Fábbio Perez gravou poemas de Sônia Cintra. Será que o audiolivro substituirá o suporte de papel? Acho que não. Concordo com Woody Allen quando diz: “É difícil superar estar na cama, virando as páginas de um livro, ou deixá-lo de lado e aguardar a chance de voltar a ele”. Mas a reflexão é outra. Penso nas bibliotecas particulares tendentes a crescer, quando alguém é maníaco, assim como eu.

Qual será o fim delas? Já contei há algum tempo o destino da coleção da Família Nogueira Garcez. E encontro uma advertência em Sêneca, no magnífico texto “Da Tranquilidade da Alma”: “As despesas de ordem literária, as mais justas de todas, não são estas mesmas razoáveis, a não ser que sejam moderadas. Para que servem inúmeros livros e bibliotecas, se o proprietário encontra apenas o tempo em sua vida para ler as etiquetas? Uma profusão de leituras sobrecarrega o espírito, mas não o ilustra; e melhor seria aplicar-se muito a um pequeno número de autores do que vagar no meio de muitos”. Vou pensar mais e melhor sobre isso.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Há sentido em juntar livros?

  1. professor, paixão não se explica, apenas se sente. E os livros não fazem parte apenas das nossas prateleiras, mas dos nossos corações – eu tentei me adaptar ao livro eletrônico por questões ecológicas, mas nada substitui o prazer de virar a página, o cheiro do papel. Compreendo quando não se admite o excesso, a luxúria literária, principalmente em tempos como os nossos. Mas há tantos títulos bárbaros, tantos autores extraordinários, tantos mundos ainda não alcançados, que fica difícil não se entregar ao deleite do consumismo. O jeito é abusar das bibliotecas ou do salutar hábito do empréstimo, o que nos obriga a sermos mais amigos e solidários. Será esta a função do livro – sociabializar, talvez…

  2. Olá, Professor!

    É relativamente freqüente o hábito de juntar livros entre os profissionais do Direito. Penso que não é por causa da profissão, mas o inverso, pois são as pessoas que gostam de livros que procuram a área jurídica.
    Muito interessante e feliz a observação e o questionamento feito por Sêneca, pelo senhor referido.
    Mas, o que seria excesso de livros? E excesso de leitura? Eu não saberia dizer.
    As pessoas que gostam de livros, simplesmente gostam. Não há uma explicação racional, há apenas um sentimento.
    De qualquer modo, penso que é melhor adquirir um livro que nos interessa, ainda que na época da compra não tenhamos tempo para lê-lo, do que mais tarde lamentar por não conseguirmos mais encontrar o livro.

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