Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O beija-mão não terminou

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Uma das praxes do regime das monarquias que o Brasil experimentou durante o período colonial e perdurou no Império, consta não haver cessado após 121 anos de República. É a cerimônia do beija-mão. Sinal de reverência ao hierarca, logo se converteu em explícita manifestação de servilismo e de bajulação. Ferramentas hábeis à abertura de todas as portas do inesgotável propiciador de benesses que é o Poder Público.

Há poucos dias, ouvi de José Pastore que o país baniu o conceito de mérito. A constatação sobressai em vários campos. Desde se não considerar “politicamente correto” estabelecer uma classificação entre os alunos que demonstrarem maior rendimento na escola, até à prática nefasta de se obter função pública a partir de vinculação familiar, política, religiosa ou ideológica.

É normal que em toda Administração exista um número de funções reservado a pessoas de confiança. Mas essa quantidade não pode se estender por uma infinidade de cargos. Nem é possível aceitar-se como normal o procedimento de se prover os mais elevados dentre os múnus da República consoante critérios de favoritismo dos transitórios detentores do poder.

A cada nomeação de titular de funções diferenciadas, sejam elas no Judiciário, Executivo – em suas inúmeras exteriorizações – ou Parlamento, a fila do “beija-mão” é que decide quem será “ungido”. Insuficiente e desconsiderado o currículo, a ombridade, a obra produzida, a idade, os serviços prestados. Importa é “ser amigo do Rei”.

Aquilo que tem início nas minúsculas entidades da Federação chamadas “municípios” – alguns sem renda suficiente para se manter e dependendo dos fundos de participação no produto da arrecadação – vai se repetir em todos os escalões da República. Isso acontece no Brasil que, desde 5 de outubro de 1988, incluiu o princípio da “moralidade” como um dos regentes da Administração Pública.

Terrível é verificar que isso ocorre com o beneplácito daqueles que deveriam impugnar o que é incompatível com a Constituição, de maneira a estimular que assim passem a pensar e a considerar normal os destituídos de qualquer senso ético. Este é o “país do futuro”, em cujo porvir os crédulos depositam suas esperanças.


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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