Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O vício tolerado

1 comentário

Nos Estados Unidos, mais de 50 milhões de habitantes são viciados em medicamentos. Isso é mais do que a soma de todos os dependentes de cocaína, heroína e ecstasy. É muito mais do que os alcoólatras, os pedófilos e os escravos do sexo. Mas, ao contrário dessas outras chagas sociais, os adictos em remédio não são objeto de consideração alguma por parte das políticas públicas. O componente psicológico dessa praga é muito evidente. Remédio é receitado por médico. Parece uma coisa destinada a curar, a fazer o bem. Só que o abuso converteu o remédio em veneno. Inúmeras as causas do fenômeno.

Uma primeira causa, sem preocupação com a ordem de importância no rol que pode ser elaborado, é a fuga à dor. A sociedade contemporânea não quer enfrentar o sofrimento. E sofrer é próprio da condição humana. Sofrer faz com que se enfrente o motivo ensejador da angústia. Sofrer, como o jovem diz, “faz parte”. Ante qualquer perspectiva de sofrimento, recorre-se ao médico. E este receita calmantes, analgésicos, ansiolíticos, as drogas que propiciam fuga e alegria falaciosa.

A partir desse consumo liberado, o paciente passa a se automedicar e não é difícil encontrar quem forneça – a bom preço – a droga desejada. Há famílias inteiras que dependem de consumo diário de pílulas para se sentirem “normais”. Se não engolem os comprimidos mágicos ou milagrosos entram em depressão e desespero. A indústria farmacêutica não pode senão estimular esse hábito, sob a mais nobre aparência de bons propósitos. Mas sustenta um mercado paralelo em que o medicamento substitui o álcool dos tempos da “lei seca”.

Além de propiciar a fabricação de drogas sem licença, farmacêutico responsável ou mesmo as mais elementares regras de higiene. Há quem compare essa legião de escravos da farmacopéia a uma verdadeira nação “zumbi”, sem condições de pensar, inapta a abandonar o vício e, pior ainda, a pensar não ser viciada. Quem é que se preocupa seriamente com isso? Enquanto isso, o Brasil destrói suas florestas e enterra a riqueza imensa da fitoterapia que poderia curar sem causar dependência.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “O vício tolerado

  1. Olá, Professor!

    Os fatos referidos pelo senhor são lamentáveis, mas ocorrem em outros lugares tabém. Em nosso País, por exemplo.
    A dependência química, guardadas as devidas proporções, não é diferente de outars formas de dependência. Todas são comportamentos compulsivos, em que já há uma predisposição da pessoa. para desnvolver um vício basta apenas o contato com o comprido ou outra forma de remédio. E o mais grave é que a pessoa acredita que está tomando remeédio e que sem ele não pode viver.
    Existem, de fato, famílias inteiras que consomem medicamentos e que são dependentes deles. O mais triste é ver crianças em alguns casos. São famílias desestruturadas, e não vai aqui críca alguma, nem julgamento algum, apenas a constatação de uma triste realidade. Os adultos que deveriam ser o apoio e os orienatdores e protetores dos filhos, estão muito deprimidos e carentes com seus próprios problemas.
    Em alguns poucos casos, e geralmente por período muito breve, pode ser mesmo necessário para algumas pessoas o uso de certos medicamentos. Mas para isso é necessária a avaliação e o acompanhamento de um médico.
    Penso que atualmente a sociedade consumista, para continuar a existir, necessita cada vez mais de pessoas com baixa autoestima e com total falta de controle sobre si mesmas. Por mais que isto possa ser um lugar comum, é o que observamos.
    A idéia de nos mostrar que temos deficiências e necessiades que nem percebemos, mas que “eles” têm condições de resolver, de forma rápida, fácil e indolor, claro que mediante certo custo (em todos os sentidos).
    Geralmente a solução é simples: basta um comprimido, ou apenas apertar um botão (de preferência do controle remoto e sentado) e depois disso, malhar, malhar muito. Tudo isto sem pensar, pois pensar pode causar sérias e graves dores de cabeça.
    Já que o esforço pessoal, a determinação e persistência estão ultrapassados, vamos resolver tudo com a “píliula mágica”. É simples assim. Seremos felizes, bem sucedidos, lindos, jovens e amados para sempre.
    Penso que quem se deixa levar por este tipo de idéias, dificilmente sentir-se-á relizado.
    Seria interessante que o ser humano entendesse que tem limites. Que não podemos tudo. Uma perspectiva amis realista nos põe a salvo de muitos problemas, principalmente dos que Vêm “disfarçados” como soluções fáceis.

    Cordiais cumprimentos!

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