Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Água? Qual das águas?

O e-mail é um instrumento mágico. Permite a comunicação espontânea, imediata e multiplicadora com número crescente de interlocutores. Além da intensificação das relações interpessoais, a rede é pródiga em toda espécie de comunicação.

Recebe-se número considerável de “correntes”, propaganda, mensagens e outros frutos da imaginação informática. Recentemente, recebi um arrazoado sobre as vantagens do consumo de água em jejum. O hábito acarretaria um plus na qualidade de vida de quem a ele se entregasse.

Consultei um médico experiente e consciente. E ele trouxe material de reflexão que merece detida análise de parte de todos os interessados na saúde da população e no futuro da Humanidade. A água que faria bem à saúde seria aquela de que já não dispomos. Água pura, descontaminada; tal como antigamente encontrada na natureza. Por que já não temos essa água?

Aquela que sai de nossas torneiras, quase não pode mais ser chamada “água”. É o resultado de muitas operações de descontaminação, porque substâncias venenosas e agrotóxicos a tornam imprópria ao uso. Nosso Diesel, por exemplo, tem 2.000% – dois mil por cento! – mais enxofre do que aquele consumido na Europa. Mas não é só. Os agrotóxicos vão todos para a torneira e ganham a via de esgotamento e chegam aos rios. Mais algo bastante ignorado: quase 80% das mulheres em idade fértil, entre 15 e 40 anos, tomam anticoncepcionais.

Esse estrógeno fica na urina e vai para o esgoto. Cerca de 7,2 milhões de litros de urina são lançados ao esgoto a cada dia, só em São Paulo. E o tratamento de água não contempla essa contaminação. Parece limitar-se a amenizar o efeito dos coliformes. A cada dia comemos mais alimentos químicos. A agricultura usa cada vez mais fertilizantes e agrotóxicos. O frango e o gado é alimentado com ração com propriedades hormonais estrogênicas. Será que ainda se toma água pura?

Paralelamente, alguém tem ideia de quanto se gasta para tratar água com outras substâncias depuradoras e de quanto o Poder Público é obrigado a investir em estações de tratamento de água e esgoto, suas estruturas funcionais e dispêndio de custeio?


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Triste fim da Ficha Limpa

Quase 4 milhões de brasileiros, aqueles que não declinaram de exercer cidadania, exigiram o “ficha limpa”. Depois que a política foi arremessada à lata de lixo da ética, era preciso reiniciar o resgate de uma atividade à qual todos estamos submetidos. É a política o caminho para o encaminhamento das questões que interessam a cada ser humano durante o curto período de sua existência terrena. A proposta é muito simples e objetiva. Impedir que cidadãos em déficit para com a Justiça venham a representar os interesses coletivos, antes de acertar contas com ela.

Aquilo que pareceu um bom retorno às melhores práticas republicanas tende ao insucesso. Neste País do “quanto pior melhor”, tudo indica venha a prevalecer a interpretação literal do artigo 16 da Constituição Cidadã: “A lei que alterar o processo eleitoral entrará em vigor na data de sua publicação, não se aplicando à eleição que ocorra até 1 (um) ano da data de sua vigência”. Se isso acontecer, e também vingar a tese de que só não terá “ficha limpa” o condenado em última instância, tudo não passou de um sonho.

Delírio de quem acredita que a população possa ter voz no regime em que a forma é mais relevante do que o conteúdo. Pois a implementação da vontade do povo só ocorrerá após vencida a corrida de obstáculos das quatro instâncias da Justiça pátria, com decisão definitiva e irrecorrível do Supremo Tribunal Federal. Depois, não acusem a juventude de boicotar a seleção dos melhores, para debochar e ridicularizar um processo que, viciado em sua fórmula, não permite que a cidadania se veja representada no Parlamento. Principalmente no Parlamento, que é a “caixa de ressonância das aspirações populares”.

Adeus à lírica noção de “sociedade aberta dos intérpretes da Constituição”, à luz do pensamento de Häberle, que inspirou alguns de nossos luminares do Direito Constitucional. Vencerá a literalidade e, com ela, a preservação de um estado de coisas que desanima, decepciona, desalenta e faz duvidar de que exista alguma esperança para as próximas gerações. Quem viver verá! Excesso de pessimismo? Uma vez mais, invoque-se José Saramago: “Não sou pessimista. O mundo é que está péssimo!”.

José Renato Nalini
é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Que nojo!

A Hegel era atribuída uma visão otimista da humanidade. Sua história poderia ser visualmente representada por uma espiral ascendente. O mundo dá voltas, mas a cada uma, a civilização ascende rumo ao progresso. Crença inefável na vocação de perfectibilidade da espécie racional. Nunca levei muito a sério essa concepção Polyana. Ao contrário, vejo nítido retrocesso naquilo que é mais fundamental. Os valores declinam, minguam, desaparecem. Cresce o acinte, o deboche, a insensibilidade. E a maior parte das pessoas parece haver perdido a capacidade de indignação. Aceita, inerte, passivamente, os mais torpes atentados ao belo e ao bom.

Noções análogas, pois ninguém recusará analogia entre ética e estética. Exemplo disso é a propaganda eleitoral. Aquilo que deveria educar, informar e esclarecer, está permeado de indecência. O termo não é exagerado, pois indecência é a qualidade, caráter ou condição do que é indecente. Inconformidade às regras do decoro, da moral ou dos bons costumes. Significa violação ao pudor, ao recato, à reserva socialmente exigida em matéria sexual. Seus sinônimos são falta de respeito, de consideração, desacato, descaramento, inconveniência, descompostura, obscenidade.

Um dos verbetes utilizados para o intercâmbio com indecência é justamente impolítica. O indecente é o abarroado, o asqueroso, o bandalho, chulo, desbocado, descomposto, descortês, impolido, impróprio, impudico, imundo, incivil, inconcesso, inconveniente e indecoroso. Nessa enxurrada de lodo que no horário nobre é despejada sobre um telespectador anestesiado, salvam-se algumas mensagens edificantes. Prepondera, contudo, a indigência moral e a mais absoluta agressão ao bom tom.

E pensar que o processo eleitoral brasileiro é confiado à Justiça, atuação calcada no direito, que não tem o direito de ser aético! Essa a mais consentânea leitura daquilo que Jellineck pretendeu enfatizar quando disse que o direito é o mínimo ético. A amplitude moral é abrangente e dela se escolhem comportamentos que não podem ser admitidos para se converterem no direito positivo. Lição que precisa estar na consciência daqueles encarregados de fiscalizar o volume, o tom e o ritmo da propaganda eleitoral.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Adeus ao cenário

A memória não ocupa espaço físico. Para ser acionada, prescinde-se de estímulo visual. Por isso é que Cecília Meireles dizia que os jardins da memória só a ela pertenciam. Só ela tinha as chaves e poderia percorrê-los sempre que quisesse. Mas é evidente que a preservação do cenário implica em reconstituição mais exata de acontecimentos nele ocorridos. A destruição do marco visível é um golpe desferido contra as lembranças. Elas começam a esmaecer. Perdem viço e tonalidade. Vão se tornando pálidas reminiscências. Tendem a desaparecer.

Foi o que senti quando vi a demolição da majestosa residência número 397 da Rua Turquia, no Jardim Europa. Construída por Victor Geraldo Simonsen para a sua grande família. Dois filhos – Fernando e Vitinho – com Regina Alves de Lima e oito outros com Dulce Ribeiro Simonsen. Casa sólida, toda revestida com produto da Cerâmica São Caetano, empresa da família. Em torno à piscina um ambiente para jogos chamado Nautilus, permitia assistir à acrobacia dos banhistas. O “Old Vic” era o pavilhão com piano de cauda, harpa, toda espécie de instrumentos musicais mais uma das maiores discotecas do mundo.

Ali se apresentaram Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Yara Bernet, Anna Stella Schic e tantos outros. Ali as recepções para Vivien Leigh, Jeff Chandler e outros astros de Hollywood. Também ali se recebeu a imprensa para lançar o II Encontro Jundiaiense de Arte, presidido por Dulce. Foi o cenário em que Victor se despediu da presidência da São Caetano, vendida ao grupo Magnesita. Começo do fim, eis que hoje a cerâmica já não existe e a experiência empresarial de cunho social e altruísta de Roberto Simonsen sedia loteamentos.

Nessa casa estiveram personalidades brasileiras de todos os setores. A riqueza generosamente partilhada atrai sem distinção. Mesa farta, bar de abastecimento régio, todas as faixas etárias eram convivas da existência em festa de Dulce e Victor. Ali Victor agonizou e morreu, em 1986, confortado pelos amigos e ao som da música erudita que ajudou a disseminar e incentivou. Agora não sobra pedra sobre pedra. Quem quiser contar a história da casa apelará para as fotos ou para os imprevistos da memória.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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O outro Wes Moore

Nos Estados Unidos também há o fenômeno da homonímia. Pessoas com o mesmo nome de família e idêntico prenome. Um dos casos mais interessantes é o de Wes Moore, ambos jovens, ambos criados no Bronx, região problemática de Nova Iorque. Ambos sem pais. Um dos pais morreu de uma enfermidade estranha e a mãe, com os filhos pequenos, voltou para a casa de seus pais. O outro, de pai vivo porém ausente. Divorciou-se também dos filhos.

Ambos cresceram junto às gangues e ao tráfico do crack. Suas mães perceberam que iriam perder a batalha. Um deixou simplesmente de ir à escola. O outro frequentava mas não rendia o possível. Os dois começaram a ter más companhias. Uma das mães trabalhava como telefonista e deixou que as coisas acontecessem. A outra conseguiu que seus pais hipotecassem a casa para que o filho estudasse. Primeiro, matriculou-o em escola de nível, no outro lado da cidade. O garoto começou a enfrentar os problemas de sempre: era muito pobre perto dos ricos, muito pretensioso junto aos pobres. Desprezado por ambas as tribos.

Passou a facilitar também neste colégio e a mãe prometeu que se ele não estudasse, iria colocá-lo no Colégio Militar. E foi o que fez. Mandou-o para a Pensilvannia e de lá ele fugiu 5 vezes. Na última, telefonou à mãe e pediu socorro. A mãe disse que a família inteira havia se sacrificado para oferecer-lhe essa chance. Ele tinha 12 anos. Tentou mudar de vida. E mudou.

Terminou como o 1º classificado na turma de 750 alunos. Entrou em Harvard. Conseguiu bolsa para Oxford. Assessorou Condolezza Rice. É um dos fenômenos de Wall Street, aos 34 anos. E o outro? Participou de um assalto, foi acusado de matar um policial em serviço e está a cumprir pena de prisão perpétua.

O bem-sucedido escreveu uma carta para a prisão e obteve resposta. Depois de 200 horas de entrevistas, publicou o livro “O outro Wes Moore”. Conclui que as duas vidas poderiam ter sido as mesmas. A diferença foi a educação. Mas, antes disso, a mãe corajosa de dizer “não” e de cumprir as ameaças feitas a benefício de sua cria. Prometer castigos e não cumprir é nefasto. Importa mais à criança pensar que os pais se importam com ela do que se importar com o que pensam.


José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Cuidado com o psicopata

O mundo está cada vez mais louco. Os sintomas são manifestos e só não percebe isso quem não quer. Ou quem já está também a caminho da loucura. Na verdade, o que é a absoluta higidez mental? Existe um padrão para a saúde da mente? Alguém ainda é capaz de conservar equilíbrio, serenidade, segurança interior, fruir da plenitude do sentimento de “estar de bem com a vida”? Quem já não notou que as pessoas falam sozinhas com frequência maior? É a piada – de mau gosto – de que o esquizofrênico nunca está só. Está sempre a falar com alguém. Ou seria resultado do fechamento dos hospícios, asilos de loucos, sanatórios para enfermidades mentais?

Num dos últimos “Roda Viva”, programa que já esteve a cargo de Jayme Martins na TV Cultura, a entrevistada foi a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa da Silva. E ela se mostrou articulada, concatenada, convincente. Mas, sobretudo, segura em sua concepção do que seja a psicopatia. Vale a pena comprar o CD e assisti-la. Afirmou que os psicopatas não têm emoção. Embora saibam o que é certo e o que é errado, eles não se deixam levar por essa distinção. Querem a autosatisfação em primeiro lugar. Lixam-se para as consequências de seus atos.

Psicopatia é uma condição genética e não é doença. De acordo com as estatísticas, para cada três homens psicopatas há uma mulher. A educação não pode “curar” a psicopatia, mesmo porque ela não é enfermidade. Mas pode modular a conduta psicopata. Recado para os pais que deixam seus filhos exercerem a tirania desde cedo. São reféns das crianças manipuladoras. Não as controlam. Temem o “traumatismo” da severidade. Algo que ficará exacerbado com a proibição da “palmada”.

O psicopata sabe exatamente como se comportar em relação à sua vítima. Esta nem sempre será morta por ele. Mas será usada para as suas finalidades. Por isso, Ana Beatriz recomenda se desconfie dos gestos melífluos, daquela amizade que surgiu de repente e já adivinha os seus desejos. Da pessoa que, aparentemente, se identifica com quem conheceu agora. E se torna logo “amigo de infância”. Pode não ser um homicida, mas um psicopata que não vai matar você, mas pode matar seus sonhos, suas esperanças e sua confiança em outros seres humanos.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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Onde fomos parar?

A quinta economia do mundo convive com o 54º lugar no ranking de 57 países cuja educação foi objeto de pesquisa qualitativa. O país que faz doações em dinheiro para nações latino-americanas suscita no mecenato internacional uma retração nas doações ao nordeste. Já que o Brasil tem dinheiro para dar aos outros, é porque não necessita mais de auxílio de entidades como Adveniat, Caritas e outros organismos filantrópicos.

A nação emergente com número crescente de automóveis, de iates, de helicópteros e de aviões particulares é também aquela da ascendente estatística de mortes no trânsito ou de vítimas da violência. O acesso de milhares de jovens à Universidade não elimina o analfabetismo funcional que acomete a maior parte dos estudantes. Sabem soletrar, mas não têm noção do que leem. Não conseguem retransmitir com outras palavras. Não dispõem de vocabulário. Não leem.

O campeão na propaganda e publicidade vende álcool à vontade, faz crianças fumarem, estimula micaretas e outros eventos fora de época. Mas não consegue afastar a juventude das drogas. Os depoimentos de mães que perderam seus filhos para o craque já não emocionam. É mais atraente acompanhar os reality shows que se diversificam e instigam a mais despudorada curiosidade.

O fogo se alastra por toda parte. Os poucos parques perdem parcela considerável de sua derradeira cobertura vegetal. Chega-se ao clima de deserto e não se inibe a queimada inclemente utilizada como estratégia para o preparo de pasto. A Terra já está rouca de tanto pedir socorro. Não adianta emitir sinais de exaustão. A humanidade continua insensível e empenhada em obter o máximo de prazer com o mínimo de trabalho.

Tudo parece invertido no tempo presente. As explicações para as mais desavergonhadas condutas são acintoso deboche. A impunidade anima os hesitantes e mostra que aqui o crime compensa. O puxassaquismo explícito vigora como a prática mais eficiente de se obter alguma vantagem. Onde foram parar brio, compostura, probidade, responsabilidade, compromisso, honra e vergonha na cara? Como chegamos a este patamar de desfaçatez? Como é que a posteridade, daqui a 200 anos, chamará este nosso Brasil de 2010?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.