Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Onde fomos parar?

2 Comentários

A quinta economia do mundo convive com o 54º lugar no ranking de 57 países cuja educação foi objeto de pesquisa qualitativa. O país que faz doações em dinheiro para nações latino-americanas suscita no mecenato internacional uma retração nas doações ao nordeste. Já que o Brasil tem dinheiro para dar aos outros, é porque não necessita mais de auxílio de entidades como Adveniat, Caritas e outros organismos filantrópicos.

A nação emergente com número crescente de automóveis, de iates, de helicópteros e de aviões particulares é também aquela da ascendente estatística de mortes no trânsito ou de vítimas da violência. O acesso de milhares de jovens à Universidade não elimina o analfabetismo funcional que acomete a maior parte dos estudantes. Sabem soletrar, mas não têm noção do que leem. Não conseguem retransmitir com outras palavras. Não dispõem de vocabulário. Não leem.

O campeão na propaganda e publicidade vende álcool à vontade, faz crianças fumarem, estimula micaretas e outros eventos fora de época. Mas não consegue afastar a juventude das drogas. Os depoimentos de mães que perderam seus filhos para o craque já não emocionam. É mais atraente acompanhar os reality shows que se diversificam e instigam a mais despudorada curiosidade.

O fogo se alastra por toda parte. Os poucos parques perdem parcela considerável de sua derradeira cobertura vegetal. Chega-se ao clima de deserto e não se inibe a queimada inclemente utilizada como estratégia para o preparo de pasto. A Terra já está rouca de tanto pedir socorro. Não adianta emitir sinais de exaustão. A humanidade continua insensível e empenhada em obter o máximo de prazer com o mínimo de trabalho.

Tudo parece invertido no tempo presente. As explicações para as mais desavergonhadas condutas são acintoso deboche. A impunidade anima os hesitantes e mostra que aqui o crime compensa. O puxassaquismo explícito vigora como a prática mais eficiente de se obter alguma vantagem. Onde foram parar brio, compostura, probidade, responsabilidade, compromisso, honra e vergonha na cara? Como chegamos a este patamar de desfaçatez? Como é que a posteridade, daqui a 200 anos, chamará este nosso Brasil de 2010?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Onde fomos parar?

  1. Olá, Professor!

    Concoro com o senhor. Alguns poucos têm muito o que comemorar e muitos têm muito a lamentar, mas não sei se têm consciência disto.
    No que se refere ao combate à dependência de drogas, a situação é, no mínimo, trágica. Afinal, para muitos a vida não tem graça sem “uma cervejinha” ou sem um “aperitivo para relaxar”. A idéia é de que todos têm controle sobre tudo e aí a porta está aberta para outras “coisas” mais “intensas”, já que apenas o álcool, em pouco tempo perde a graça para alguns. O nível de desinformação é alarmante.
    No que respeita ao meio ambiente, a situação também é caótica. Há aproximadamente cinco anos, restava apenas 7 % da Mata Atlântica originária no território brasileiro. Atualmente resta apenas 5 %.
    Somente há pouco tempo começamos a nos dar conta da importância da Floresta Amazônica. Será coincidência isto ter acontecido somente após alguns outros Países terem se interessado pela sua preservação?
    Tudo isto sem falar na Floresta da Tijuca, a maior floresta urbana do mundo, fato de que a maioria das pessoas nunca ouviu falar.
    É, de fato o Brasil repousa em berço esplêndido, mas não é por isso que devemos dormir no ponto!
    Quanto ao analfabetismo, segundo penso, além de escola, também é necesária a saúde, a educação (familiar, não apenas o que se recebe na escola, que muitas vezes é insuficiente), e todos os outros requisitos: habitação, vestimenta, transporte etc. Haja vista que uma criança ou um jovem subnutrido ou desnutrido (não adianta ser “cheinho” e apresentar carências de vitaminas, proteínas, sais minerais etc. como resultado de uma má alimentação), que não dorme bem à noite (por motivos diversos), que não tem com quem dialogar, não tem pessoas próximas com quem possa aprender alguma coisa útil e, de preferência, com um vocabulário razoável, tenha a posibilidade de receber informações e trocar idéias, não tem mesmo condições de fazer um bom aprendizado na escola.
    Isso somente será possível com um trabalho de duas ou mais gerações, visto que para que as pessoas tenham um desenvolvimento adequado, é necessária infraestrutura familiar e social.
    Em suma: para que as pessoas tenham a possibilidade de serem cidadãs, necessária é toda uma infraestrutura compatível.
    Cabe a todos os brasileiros contribuir para que o texto de nossa Constituição não se torne, como nas palavras de Lassale, apenas uma folha de papel. Afirmo isto porque todos essas questões estão disciplinadas no texto constitucional. “Só” falta a sua concretização.

  2. Parece até piada do Ari Toledo quando se escuta que o Brasil ajuda outros países.
    Renato, essa desfaçatez é efeito de 500 anos camuflados e de 20 mil anos que não foram respeitados pelas tropas portuguesas. A historia do Brasil antes de 1500 foi destruida, e a historia desses 500 anos é contada por quem estar por cima, por quem sempre venceu.

    parabens pelo texto e pelo blog.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s