Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Adeus ao cenário

3 Comentários

A memória não ocupa espaço físico. Para ser acionada, prescinde-se de estímulo visual. Por isso é que Cecília Meireles dizia que os jardins da memória só a ela pertenciam. Só ela tinha as chaves e poderia percorrê-los sempre que quisesse. Mas é evidente que a preservação do cenário implica em reconstituição mais exata de acontecimentos nele ocorridos. A destruição do marco visível é um golpe desferido contra as lembranças. Elas começam a esmaecer. Perdem viço e tonalidade. Vão se tornando pálidas reminiscências. Tendem a desaparecer.

Foi o que senti quando vi a demolição da majestosa residência número 397 da Rua Turquia, no Jardim Europa. Construída por Victor Geraldo Simonsen para a sua grande família. Dois filhos – Fernando e Vitinho – com Regina Alves de Lima e oito outros com Dulce Ribeiro Simonsen. Casa sólida, toda revestida com produto da Cerâmica São Caetano, empresa da família. Em torno à piscina um ambiente para jogos chamado Nautilus, permitia assistir à acrobacia dos banhistas. O “Old Vic” era o pavilhão com piano de cauda, harpa, toda espécie de instrumentos musicais mais uma das maiores discotecas do mundo.

Ali se apresentaram Guiomar Novaes, Magda Tagliaferro, Yara Bernet, Anna Stella Schic e tantos outros. Ali as recepções para Vivien Leigh, Jeff Chandler e outros astros de Hollywood. Também ali se recebeu a imprensa para lançar o II Encontro Jundiaiense de Arte, presidido por Dulce. Foi o cenário em que Victor se despediu da presidência da São Caetano, vendida ao grupo Magnesita. Começo do fim, eis que hoje a cerâmica já não existe e a experiência empresarial de cunho social e altruísta de Roberto Simonsen sedia loteamentos.

Nessa casa estiveram personalidades brasileiras de todos os setores. A riqueza generosamente partilhada atrai sem distinção. Mesa farta, bar de abastecimento régio, todas as faixas etárias eram convivas da existência em festa de Dulce e Victor. Ali Victor agonizou e morreu, em 1986, confortado pelos amigos e ao som da música erudita que ajudou a disseminar e incentivou. Agora não sobra pedra sobre pedra. Quem quiser contar a história da casa apelará para as fotos ou para os imprevistos da memória.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

3 pensamentos sobre “Adeus ao cenário

  1. Oi,Renato.
    Que linda lembrança e homenagem.No último dia de vida da mamãe,voce esteve com ela,lembra? Obrigada por todo carinho e dedicação a ela…Tudo de bom…:)

  2. Como é bom ver que meus pais tiveram um grande amigo!
    E como voce consegue em tao poucas linhas definir o que era aquela casa
    Beijo a toda familia!
    Neno (Victor Fernando)

  3. O budismo reflete profundamente sobre a impermanência….a história de nossa família é uma boa demonstração deste fato….
    Abraço ao amigo! Betôh.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s