Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Meio burro, não!

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Quem é privilegiado por conviver com PAULO BOMFIM, o Príncipe dos Poetas Brasileiros e Decano da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, também conhece a LÚCIA. É uma paraibana que responde pela estrutura formal e afetiva daquele ninho amorável. Cuida do poeta com todo o carinho. Propiciou a ele amenizar a perda de EMY BOMFIM, que partiu há quatro anos, mediante a preservação do estilo e do espírito da companheira. Ali ainda se respira a presença de Emy.

Seus pratos são confeccionados com amor por essa criatura cujo sorriso já a diagnostica: pessoa pura, generosa, profundamente boa. Exemplar humano cuja receita raríssima parece ter sido perdida pelo Criador. Tão tolerante com a multiplicação de caracteres discutíveis. Tão econômico ao semear a humanidade com primícias como a Lúcia. Pois bem. Há alguns dias, Lúcia estava triste. Isso é raro para quem só sabe sorrir.

Depois de alguma hesitação, contou que sua mãe perdera o burro que a ajudava lá na Paraíba. Um burro, não um jegue. Burro é mais forte. Auxiliava no transporte de água – tão escassa no nordeste – e também da produção caseira que garantia o sustento da família. Feijão e mandioca, principalmente. O burro morreu. Sem ele, o trabalho se agravou. Antes era uma viagem. Para carregar nas mãos, quantas viagens se tornaram necessárias? Paulo se condoeu e se propôs a comprar outro burro. O preço normal seria mil reais.

Ele entregou o dinheiro à Lúcia. Ela mandou para a mãe, mas – depois de alguns dias – continuava triste. Confessou que o preço do burro agora era 1.300 reais. Paulo de imediato retrucou: – “E eu lá sou homem de comprar meio burro? Tome lá mais 300 reais!”. Com o acréscimo, o animal foi comprado. A mãe de Lúcia já não tem de carregar sob o sol inclemente a sua produção doméstica.

Voltou o sorriso à face angelical de quem costuma brindar os comensais de PAULO BOMFIM com iguarias divinas. Moral da história: de como a morte de um burro no sertão da Paraíba pode consternar a intelectualidade paulistana e ameaçar um fragmento do Paraíso que, na verdade, situa-se na região dos Jardins da metrópole.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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