Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Partiu o Geraldo da Mariazinha

2 Comentários

Numa semana em que partiram Dorina Nowill e José Eduardo Loureiro, a eternidade também colheu Geraldo de Camargo Vidigal. Sobre o expedicionário da FEB muitos colegas seus poderão falar. Assim como sobre o fundador da Geração de 45, grupo de poetas que ofereceu uma proposta diferente para o cultivo desse gênero tão precioso que é a poesia. Há muito a ser dito sobre o professor de Direito da USP, o maior conhecedor de direito monetário e criador da Febraban, a poderosa confederação das entidades bancárias do Brasil.

Prefiro permanecer na dimensão humana de GERALDO. Conheci-o como meu professor na pós-graduação da USP. Era circunspecto, um pouco distante dos alunos, imerso em sua reflexão. Depois vim a conviver com ele quando se casou com MARIAZINHA CONGILIO em 14.8.1989. Tive a honra de ser seu padrinho de casamento, ao lado de DAISY e OLAVO SETÚBAL, hoje também chamados à transcendência.

E durante os quinze anos de casamento, Geraldo se transformou. Com a sua vivacidade incansável, Mariazinha fez com que Geraldo viajasse, recebesse amigos, escrevesse, comparecesse a saraus, fosse o autor da letra do Hino da tertúlia “Pensão Jundiaí”. Os amigos podem testemunhar essa profunda mutação e o bem que MARIAZINHA proporcionou ao GERALDO. Foi, verdadeiramente, outra pessoa. Bem- humorado, festeiro, elegante, excelente anfitrião.

Fui privilegiado conviva das inúmeras recepções que o casal proporcionou ao seu dilatado e crescente círculo de amigos. E comprovei o quão fundamental foi MARIAZINHA CONGILIO nos últimos anos de vida de GERALDO. Com a sua generosidade e vocação de agregar, ela fez com que ele chamasse família e velhos companheiros para vivenciar uma nova e feliz etapa existencial.

Promoveu-o e à sua obra. Redescobriu sua poesia, fê-lo recebido por organismos internacionais, investiu em sua capacidade de novamente liderar movimentos como o “Viva Paulista”, para a comemoração do Centenário da mais famosa avenida paulistana. Como tudo o que é experiência humana tem termo certo para acabar, primeiro foi-se MARIAZINHA. Com ela, muito do GERALDO, que agora também se foi.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Partiu o Geraldo da Mariazinha

  1. Querido Nalini,
    só agora leio seus doces comentários sobre meu pai. Fiquei muito, muito emocionada e grata.
    Gostaria de apresentar a você o Geraldo mais jovem, que talvez você não tenha conhecido, e que sempre foi festeiro. Era um dos integrantes da Turma do Alarga a Rua, farristas desde a adolescência. Mas, apesar disso, todos se tornaram homens destacados em suas profissões — e levados muito a sério por seus pares. Conheceram-se aos 13 ou 14 anos e foram inseparáveis para sempre. Ou até que a morte os separasse.
    Olavo Setúbal, que você mencionou, foi um deles. A gargalhada do tio Olavo é inesquecível, era tonitroante, chacoalhava paredes. Outros que integravam a Turma: Paulo Nogueira Neto, criador das brincadeiras mais elaboradas, José Bonifácio Coutinho Nogueira, Marcelo Vidigal… E mais dez amigos íntimos. É muito difícil encontrar uma foto em que meu pai não esteja gargalhando, nesse grupo, em qualquer época da vida. Quando eu era criança, adorava dormir ao som dos risos, quando os casais se reuniam na nossa casa. Casais, pois as mulheres foram sendo integradas à Turma, à medida que os meninos se casavam. E, por grande sorte, todas se tornaram grandes amigas entre si, tanto quanto eles eram amigos.
    Até a velhice, continuaram se encontrando às quartas-feiras para jantar no Le Casserole. Quando a idade os pegou de jeito, o encontro semanal passou a ser um almoço. E, mais velhos ainda, o almoço passou para o Itaú.
    Quando me casei, eu não queria festa — mas papai disse que não reconheceria casamento de filha sem festão. Todos os aniversários dele foram comemorados com muita gente lá em casa, até a morte de minha mãe, Elsie. Papai era um grande festeiro. Quando vendeu a casa da rua Evangelista Rodrigues, aproveitou para fazer — na véspera da mudança — uma grande festa para minha filha Lillian, que aniversariava naquele mês. Uma festa como foi a minha aos quinze anos: convites impressos, 200 convidados… A diferença foi que tive uma orquestra e ela teve um DJ.
    Com os filhos e netos, era brincalhão. Sempre nos fazia rir, em qualquer fase da vida — porque as palhaçadas iam se adaptando à nossa idade.
    Quanto à liderança, lembro que o motivo pelo qual ele foi mandado para a guerra, na Itália, foi ter liderado o movimento dos estudantes da Faculdade de Direito contra o ditador Getúlio Vargas. As batalhas não o modificaram. Continuou sendo quem sempre foi.
    É verdade que não frequentava saraus literários, depois que se casou. Isso ele cortou da vida de casado. Achava atrapalhariam o casamento, pois em geral invadiam a madrugada… Mamãe sempre contava que tio Paulinho, o Paulo Vanzolini, chorava de soluçar, na igreja, no casamento deles, porque ia perder o companheiro de boemia.
    Alguns amigos do papai não eram da Turma do Alarga a Rua. Desses, os mais próximos eram tio Paulinho e tio Péricles, o Eugênio da Silva Ramos. Eles continuaram frequentando nossa casa — e nós as casas deles. Cresci brincando com seus filhos e chamando tia Ilse e tia Niza de “tias” — mas papai parou de ir a encontros literários e musicais.
    Não parou de compor músicas engraçadas, principalmente marchinhas de Carnaval. Que só os filhos e os amigos conheceram… Nunca foram gravadas.
    Outros frequentadores da nossa casa, na minha infância, não eram propriamente amigos: eram artistas que mantinham contato com papai. Lembro bem dos pintores Rebolo e Bonadei. E lembro também de Decio Pignatari, sempre com os irmãos Campos.

    Pelo que você diz no seu post, parece que meu pai era bem diferente, como professor. Acredito que fosse, mesmo!… Essa faceta eu não conheci. Tornou-se professor aos 50 anos. A docência talvez tivesse para ele uma mística que não poderia ser invadida por sua personalidade divertida.

    Um beijo, muito obrigada pelas lembranças!
    Betty Vidigal

    • Que bom ter lembranças tão bonitas de seu pai! Não tive o privilégio de conhecê-lo antes! Foi um instantâneo incompleto, de alguém que só o conheceu superficialmente. O importante é que tal reconstituição do perfil do querido GERALDO se faça dessa forma poliédrica: ele tinha uma legião de amigos, cada qual pode descrevê-lo pelo aspecto que mais o caracterizou, de acordo com a ótica e até as idiossincrasias dos intérpretes! Beijo para você. Obrigado pela linda mensagem. Renato

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