Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Mudar é a regra

2 Comentários

Enquanto a imutabilidade é a exceção, tudo muda. Nada é estático. A começar da vida. Biologicamente somos óvulo, depois embrião, feto, criança, adulto e velho. Depois cinzas. Em seguida um nome, uma foto esmaecida. Recordação por um tempo e mais nada. Se a existência humana é assim, por que a teimosia em pretender imutabilidade, engessamento e cristalização de algo como a linguagem? Esta é instrumento de comunicação e não pode permanecer indiferente às profundas mutações impostas pela ciência e pela tecnologia.

Espanta-me o furor com que se condena a expressão de uma juventude que assume a onomatopeia, quando não o gestual para transmitir o que lhe passa pela mente. Será que outras fórmulas desservem a veicular ideias e sentimentos? Luta inglória a de se opor às tendências das gerações em pleno curso ascendente. Se a tolerância é virtude da maturidade, nem sempre o velho é condescendente com o novo palavreado.

Já a mocidade é demasiado entusiasta para que possa ser indulgente. Não compreende, também, a reação do idoso – e isso não é cronologia, pois há muito jovem que nasceu velho – contra sua fala. Cumpre recordar que só as línguas mortas estacionam. O velho Horácio, dois milênios antes de se inventar a filologia, já intuíra que as línguas são organismos vivos. E legou à nossa reflexão os versos traduzidos por Cândido Lusitano:

Assim como a floresta perde as folhas/ Quando declina o ano, assim a idade/das palavras acaba: outras sucedem/ que, nascidas apenas, já florescem/ em bela mocidade, e tomam força./ Nós, e tudo que é nosso, à morte estamos obrigados.

Pois nem também de todas as palavras/ há de sempre durar o apreço e graça./ Quantas renascerão, que estavam mortas,/ e quantas morrerão, que agora vivem,/ se o uso consentir, pois é da língua/ sumo legislador e regra viva.

Aprendamos com os jovens de espírito. Assimilemos os neologismos. Aceitemos a realidade incontestável de que só não se agita aquilo que a morte já colheu. É preciso saber ouvir. Estar aberto a mensagens que chegam pelas vias as mais inesperadas. Quem não se lembra de que é possível até mesmo ouvir estrelas! Ora, direis, ouvir estrelas?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

2 pensamentos sobre “Mudar é a regra

  1. Olá, Professor!

    Deveras, mudar é a regra!

    Certa vez ouvi que o Mar Morto é morto porque não renova as suas águas. Ele recebe água de seu único afluente, o Rio Jordão. A água ali fica estagnada, não flui para lugar algum.

    O jovem tem muitas expectativas, muita curiosidade, quer conhecer tudo e quer ser diferente. É uma pena que alguns não tão jovens não se lembrem mais de sua juventude.

    O que funcionou para alguns em determinada época, pode não ser o melhor para outros em época mais recente.

    No mais, devemos repeitar a hisória de vida de quem nos precedeu. Entretanto, o mesmo respeito é devido a quem vem depois de nós.

  2. Boa noite Professor,
    de fato, acho que estamos num processo de “troca de energias”, o mais jovem busca no mais experiente aquilo que lhe falta, enquanto que o segundo procura no primeiro a fonte para uma “renovação” nas trocas de idéias, por isso presenciamos casos de verdadeita “reverência” de um para com o outro, talvez busquem o melhor do outro
    Apesar das atrocidades que estamos testemunhando no dia a dia, percebo que nosso mundo ainda tem esperança, pois a muito tempo não vivemos um período tão sereno, mesmo com os “antigos” Samurais querendo voltar à “velha” forma de solução para divergências.
    Acho que os responsáveis por esta “mancidão” atual são estes jovens que não vêm mais barreiras, seja da linguagem, geográfica, religiosa ou política, e sem pré-conceitos vão em frente sem se preocuparem com velhos dógmas.’.

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