Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Academia ultrajada

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Um grupo de professores resolve censurar “As Travessuras de Pedrinho”, de Monteiro Lobato, porque o maior escritor infantil brasileiro teve a audácia de falar que Tia Anastácia era preta. Ainda não deixaram de ecoar brados de todos os rincões pátrios contra essa tentativa e surge outra acusação. Agora o objeto é um conto de Ignácio de Loyola Brandão, que usa palavras chulas numa de suas deliciosas narrativas. O que há em comum nos dois episódios? Ambos os escritores integram a Academia Paulista de Letras.

Monteiro Lobato relutou em aceitar a láurea acadêmica. Era mais um ativista afeiçoado a perseguir as melhores causas. Encetou luta inglória para mostrar que o Brasil possuía petróleo e deveria explorá-lo diretamente, sem interferência de interesses estrangeiros. Foi preso por isso. Há pouco narrei a visita que a menina Lygia Fagundes Telles fez a ele no cárcere. Mas não foi só isso. Arrostou a incompreensão para publicar autores brasileiros. Assumiu o desafio, colheu prejuízos.

Divulgou, qual apóstolo das letras, a produção pátria. Ignácio de Loyola Brandão é outro evangelista da literatura. Embora famoso, com livros publicados em todo o mundo, não recusa convites e percorre o Brasil inteiro, a pregar a importância da escrita e da leitura. Teve um de seus livros proibido pelo autoritarismo. Agora é novamente censurado. Além disso, é profeta.

Num de seus livros, Não Verás País Nenhum, anteviu o caos resultante da opção pela “cultura do automóvel” que fizemos na década de 60 do século passado e na qual nos mantivemos até hoje. Um dia, com o excesso de carros, sem poder se movimentar, os motoristas deixariam seu automóvel e sairiam a caminhar, irados, impotentes e revoltados. Falta muito para isso? Também previu a tragédia da falta d´água.

Exatamente no Largo do Arouche, onde está situada a sede da Academia Paulista de Letras, haveria o “Museu da água”, com frascos a conter amostra dos rios que desapareceram. Alguém duvida de que cheguemos a isso? Censura nunca mais! É o que a Constituição da República assegura. Seja como for, a Academia Paulista de Letras se orgulha de ter dois membros seus sob a patrulha do obscurantismo. Isso prova que ela soube, sabe e saberá escolher seus membros.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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