Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Nem existe nome para isso

1 comentário

Quem perde os pais é órfão. Quem perde mulher ou marido é viúvo. Mas qual o nome reservado a quem perde filho? A dor é tão terrível que nem existe denominação para isso. A observação é feita pelo médico William Petit, de Connecticut, cuja família – mulher e duas filhas – foram torturadas, estupradas e queimadas vivas por dois indivíduos em 2007. Três anos depois, o primeiro autor foi condenado à pena de morte. O segundo será julgado em fevereiro. Mas Will Petit é um homem que não pode ter alegria. As filhas eram aquelas típicas norte-americanas envolvidas no esporte.

A mais velha já estava a cursar Medicina, como o pai. A mais nova gostava de cozinhar e de jardinagem. A mãe, que fora enfermeira de alto padrão, daí casar-se com o médico, fora acometida de esclerose múltipla, mas não perdera a alegria de viver. Numa noite os dois drogados invadem a casa e passam sete horas a supliciar a família. O pai chegou, levou um golpe na cabeça com um taco de golfe e quase morreu. Mas as três mulheres, após toda espécie de sevícias, tiveram gasolina arremessada ao corpo e em seguida ateou-se fogo. O sobrevivente não sorri.

Não consegue mais encontrar alegria na vida. Deixou de clinicar. A única alavanca mantenedora de seu respirar é a Fundação Família Petit, que procura eternizar a memória das três vítimas. Não é a única tragédia no mundo. Muitas outras acontecem e podem ser conhecidas por tantos que delas tomaram conhecimento. Mas é importante saber que o mal existe, há quem o pratique por índole nefasta e que nenhuma sanção é suficiente para reparar a dor infligida gratuitamente ao semelhante. A crença é o único lenitivo. Como confortar alguém que em nada acredita, senão nessa efêmera existência terrena?

Consola pensar que existe um lugar, físico ou não, em outra dimensão, onde os pais que perderam seus filhos poderão fitá-los novamente. Carregá-los, vivenciar sua infância e regredir até mesmo ao momento da espera pelo nascimento. Só isso é que poderá atenuar os dias terríveis de famílias como a do Dr. Will Petit, que tem uma imagem para descrever seu sofrimento: há um buraco insuscetível de desaparecer. O tempo pode aplainar as irregularidades. Mas ele continuará lá. Enquanto Will Petit viver.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Nem existe nome para isso

  1. Dr. Nalini,
    É realmente difícil dimensionar a carga de sofrimento de pessoas que experimentaram o mal e a loucura em toda sua brutalidade. Não vejo caminho mais belo que o escolhido por William Petit: cultivar a memória de seus queridos e espalhar bem-estar, mesmo tendo sido afligido pela pior desgraça que poderia ocorrer a um ser humano.

    Quanto à ideia de um plano superior, apesar de agnóstico, penso que ela será sempre convidativa. Recentemente tive oportunidade de assistir a uma série de palestras gravadas do grande estudioso dos mitos e da religião, Joseph Campell http://goo.gl/Ubkc6), em que ele discorria exatamente sobre isso: o mito como uma necessidade fundamental humana para prepará-lo e torná-lo sereno diante do curso natural da vida, que inclui a decrepitude e a morte. Na visão daquele grande erudito, o mito, seja na crença do sobrenatural, seja na ciência, estará sempre presente, pois é conceptual à nossa mente.

    E a Justiça, é claro, tem um papel importantíssimo em diminuir a incidência de desgraças como a de Petit. Lembro-me da notícia de um crime semelhante ao ocorrido com a família Petit ou, mais especificamente, semelhante a uma cena de estupro retrata por Stanley Kubrick em “Laranja Mecânica”. O fato deu-se no Tocantins e o estuprador cumpria sentença por estupros anteriores e estava livre em razão de algum benefício na execução da pena. Sempre me perguntei se o sofrimento daquele homem
    que presenciou terrivelmente a violência com si e sua mulher não poderia ter sido evitado. Se o uso da ciência, estudos psicológicos, psiquiátricos ou estatísticos mais pormenorizados ou, talvez, mais diligência por parte dos operadores do direito não poderiam ter evitado aquela carga de sofrimento que em vida nunca se aliviará.

    Do meu ponto de vista, a vida das vítimas que sobrevivem a tais desgraças é incomparavelmente pior que a daquelas que morrem no ato da violência.
    São vítimas condenadas a uma existência sem paz, a uma recordação constante de memórias torturantes, uma aflição e sofrimentos
    perpétuos que, talvez, só possam ser silenciados com a morte (que, na perspectiva dessas vítimas, naturalmente sempre tardará muito a chegar).

    A Polícia e a Justiça têm um papel muito importante aí, em tentar reduzir estatisticamente a ocorrência do mal. E, a todos nós, um
    papel de vigiar fatos que podem levar ao surgimento de monstros (muitas vezes crianças vítimas de monstruosidades pretéritas). Cabe-nos, ainda, um outro papel de tentar atenuar o sofrimento , começando pelo singelo ato de deixarmo-nos inspirar por grandes heróis como Willian Petite e, tendo muito mais motivos do que eles, lutar por um mundo um pouco melhor, com mais bem-estar e o menor sofrimento para o maior número.

    PS — Descobri hoje seu blog e seu twitter. Por óbvias razões éticas, embora eu não esteja inscrito em concursos para a magistratura paulista (mas tenho a felicidade de ser notário e oficial de registro no Estado de São Paulo), acredito não ser reprovável, mas até recomendável, a participação em seu blog utilizando um pseudônimo. Até porque, me parece, o principal é a substância das ideias. E essa oportunidade de intercâmbio delas, proporcionado pelos meios de comunicação, é muito enriquecedora.

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