Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Mentiras convencionais

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O filósofo húngaro Max Nordau (1849-1923) escreveu um livro hoje esquecido: “As mentiras convencionais da nossa civilização”. Ele é muito duro com os parlamentares.
Todos sabemos que o Legislativo, na concepção original reformulada por Montesquieu, seria o Poder mais importante. Aquele que “faz as regras do jogo”. Os demais seriam subalternos. Governar é cumprir a lei. Julgar é dizer o que a lei quer, se as pessoas se desentendem.

Com o passar do tempo, o Parlamento foi adquirindo outra fisionomia e, no mundo todo, se desgastou. Tanto que Nordau afirmava: “O que é para o deputado o interesse geral e o bem público? Mero negócio de comédia: o deputado quer subir e o eleitor tem de servir-lhe de estribo. Trabalhar para o povo? Besteira! O povo é que deve trabalhar para ele. Apelidam os eleitores “gado que vota”: essa metáfora é de rara exatidão… gado metafórico que no dia da eleição deposita a cédula na urna”. Hoje, digita eletronicamente sua vontade.

A visão de Max Nordau era tétrica, mas não deixa de se mostrar atualíssima em alguns nichos: “O político não tem outro fim nas suas ações senão o gozo de seu egoísmo. Para aí chegar, deve obter o apoio da massa. Ora, não se obtém esse apoio senão à força de promessas e das tradicionais palavras de sensação que recitam tão maquinalmente, como o mendicante o seu Paster Noster. O político submete-se a esse uso sem hesitar. Desde que eleito pelos eleitores, o seu amor próprio fica satisfeito e a massa desaparece completamente de suas vistas para surgir de novo quando o ameaçam de lhe tirar o poder. Então fará o que for necessário para conservá-lo, como fez antes para obtê-lo. Conforme as exigências da situação, ele dobrará de novo a enfiada das promessas e das frases de sensação ou ameaçará com o punho aqueles que murmurarem”.

E o povo? “Os eleitores não conhecem o indivíduo, nada sabem de seu caráter, se tivessem que emprestar-lhe por algumas horas uma chaleira velha, informar-se-iam dele certamente melhor; no entanto, confiam-lhe os maiores interesses do Estado”. Não é o caso de nossos deputados. Mas é necessário ficar vigilante para a urgentíssima retomada de ética na política.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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