Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Atual Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. É o Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.


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Meus amigos deputados

Tenho vários amigos deputados. Alguns muito próximos. Vão tomar posse estes dias. Eles sabem o que penso da urgência de se restaurar a dignidade da política. Não concordo com aqueles que se resignam a dizer que a política toda está contaminada. Papini, em seu “Diário”, diz: “A política dirige os homens, que não são matéria limpa: é tolo acusar o carvoeiro de não estar sempre com as mãos brancas”. Acredito que haja ainda pessoas sérias e bem intencionadas. Para estas reproduzo alguma coisa que Hilda Hilst inseriu em sua crônica “Hora dos Tamancos”, publicada em 29.3.1993.

Começa por afirmar: “As incongruências, os absurdos, a estupidez, a selvageria, o imponderável, isso tudo é o que nos rodeia, e ainda assim temos de sobreviver e continuar como se estivéssemos no melhor dos mundos. Roubam bilhões, trilhões, mas se algum pobre coitado roubar um pão, o cara sai correndo atrás e cadeia nele”. Parece concordar com Papini, ao invocar Ernest Becker, tão pessimista em relação à espécie humana:

“Que devemos concluir de uma criação na qual a atitude rotineira consiste nos organismos despedaçarem uns aos outros com dentes de todos os tipos mordendo, triturando carne, talos de plantas, ossos entre os molares, empurrando, satisfeitos, a massa goela abaixo, avidamente, incorporando a essência desta em seu próprio organismo, e depois excretando com mau cheiro e gases os resíduos? A criação é um pesadelo espetacular que ocorre num planeta que vem sendo encharcado de sangue de todas as suas criaturas há centenas de milhões de anos”.

E se encharcando de água também, na loucura climática gerada pela insensatez de quem despreza o ambiente e liquida – inclemente e crescentemente – o verde que ainda resta. Confio que meus deputados comecem bem e iniciem pelo mais urgente: a defesa ecológica. Não quero que prevaleça, no Brasil, a triste constatação de Papini: “No começo eram os meios-homens. Nos tempos modernos desapareceram os gentis-homens – depois os homens de bem – depois os homens. Ficaram os subhomens que se fantasiam de super-homens”. Boa legislatura a todos e Deus nos proteja!

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.


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A incessante busca pelo poder

Nas reflexões que fiz neste espaço em relação à nova legislatura, contemplei o livro “As mentiras convencionais da nossa civilização”, de Max Nordau. Ele é muito sarcástico em relação aos políticos. Salienta que a principal característica de quem se dispõe a exercer um cargo público é o egoísmo. “Eis os homens que seguem a carreira política: são conduzidos pelo egoísmo, entretanto têm necessidade de certa popularidade, e a popularidade só é adquirida ordinariamente por aquele que auxilia a felicidade da comunidade ou finge auxiliá-la; os nossos ambiciosos terão, pois, de ocupar-se dos interesses públicos ou farão pelo menos semblante de interessar-se por eles. Devem, para ser bem-sucedidos, possuir diversas qualidades que não atraiam antipatias. Devem saber fingir e mentir, porque são constrangidos a sorrir para homens que lhes são repugnantes ou indiferentes, sob pena de criar inumeráveis inimigos; devem fazer promessas que sabem previamente não poder cumprir.

Devem, enfim, lisonjear as inclinações e as paixões vulgares da multidão, fingir partilhar seus preconceitos, suas ideias tradicionais. Todos esses traços reunidos formam um personagem repulsivo ao homem de caráter firme. Em qualquer romance, semelhante personagem não atrairia nunca a empatia do leitor; na vida, o mesmo leitor lhe dá seu voto de todas as eleições”.

A visão pessimista de Max Nordau não se aplica a todos os políticos. Remanescem os honestos. Mas, de maneira geral, a descrença predomina. Quando se vê gente honesta cercar-se de desonestos de todos os matizes, apresenta-se um dilema: ou o detentor do cargo é despreparado, por não saber escolher, ou é mal intencionado. Não há uma terceira via. E isso preocupa aquele que pretende encontrar ética renascida na política.

Se não há receitas infalíveis para formar bons políticos, existe algo que todos podem fazer: fiscalizar, cobrar, vigiar, não perder a capacidade de indignação. Se não podemos compelir o Governo a “fazer o bem”, não é raro tenhamos condições e força para impedi-lo de “fazer o mal”. E para os que perseverarem no caminho do mal, Hilda Hilst escreveu um poema para eles:

Sobre o vosso jazigo
– homem político
Nem compaixão, nem flores.
Apenas o escuro grito
Dos homens.
Sobre os vossos filhos
– homem político –
A desventura do vosso nome.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

 


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Mentiras convencionais

O filósofo húngaro Max Nordau (1849-1923) escreveu um livro hoje esquecido: “As mentiras convencionais da nossa civilização”. Ele é muito duro com os parlamentares.
Todos sabemos que o Legislativo, na concepção original reformulada por Montesquieu, seria o Poder mais importante. Aquele que “faz as regras do jogo”. Os demais seriam subalternos. Governar é cumprir a lei. Julgar é dizer o que a lei quer, se as pessoas se desentendem.

Com o passar do tempo, o Parlamento foi adquirindo outra fisionomia e, no mundo todo, se desgastou. Tanto que Nordau afirmava: “O que é para o deputado o interesse geral e o bem público? Mero negócio de comédia: o deputado quer subir e o eleitor tem de servir-lhe de estribo. Trabalhar para o povo? Besteira! O povo é que deve trabalhar para ele. Apelidam os eleitores “gado que vota”: essa metáfora é de rara exatidão… gado metafórico que no dia da eleição deposita a cédula na urna”. Hoje, digita eletronicamente sua vontade.

A visão de Max Nordau era tétrica, mas não deixa de se mostrar atualíssima em alguns nichos: “O político não tem outro fim nas suas ações senão o gozo de seu egoísmo. Para aí chegar, deve obter o apoio da massa. Ora, não se obtém esse apoio senão à força de promessas e das tradicionais palavras de sensação que recitam tão maquinalmente, como o mendicante o seu Paster Noster. O político submete-se a esse uso sem hesitar. Desde que eleito pelos eleitores, o seu amor próprio fica satisfeito e a massa desaparece completamente de suas vistas para surgir de novo quando o ameaçam de lhe tirar o poder. Então fará o que for necessário para conservá-lo, como fez antes para obtê-lo. Conforme as exigências da situação, ele dobrará de novo a enfiada das promessas e das frases de sensação ou ameaçará com o punho aqueles que murmurarem”.

E o povo? “Os eleitores não conhecem o indivíduo, nada sabem de seu caráter, se tivessem que emprestar-lhe por algumas horas uma chaleira velha, informar-se-iam dele certamente melhor; no entanto, confiam-lhe os maiores interesses do Estado”. Não é o caso de nossos deputados. Mas é necessário ficar vigilante para a urgentíssima retomada de ética na política.

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.