Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Entrechoque de culturas

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A França e o Brasil sempre foram íntimos. A Gália inspirou costumes e despertou a admiração “la bas” e serviu de modelo para o que a elite considerava o suprassumo do bom gosto durante séculos. É relativamente recente o oscilar do pêndulo para a América do Norte, hoje a predominar os hábitos tupiniquins. Paulo Prado, paulista familiarizado com a França, além de outras contribuições, comprou um diário íntimo do engenheiro francês Louis Leger Vauthier que foi contratado pelo Barão e depois Conde da Boa Vista, Francisco do Rego Barros, para chefiar a Repartição das Obras Públicas da Província do Pernambuco no início do Império.

Vauthier esteve no Brasil de 1840 a 1846. Tinha menos de 30 anos e anotava em seu diário tudo o que achava interessante. Essas anotações foram publicadas em 1940, exatamente um século depois, pelo Serviço Gráfico do Ministério da Educação e Saúde, com prefácio e notas de Gilberto Freyre. Imagine-se o que era Pernambuco há 170 anos! Muita coisa era igual. Os conchavos, a politicalha, a suspeita de corrupção. O ser humano é o mesmo, em todas as eras, quando se trata de exibir o pior de suas fraquezas.

A inclemência em relação ao ambiente já existia. Vauthier registra as queimadas, “único meio empregado para a derrubada” da mata. Já existiam os açudes, alguns deles construídos pelos holandeses e as usinas de açúcar. Na zona rural, a mulher não aparecia para estranhos. Mas no Recife elas eram onipresentes e muitas quiseram seduzir o jovem francês, disputando-o com as conhecidas artimanhas dessa arte. Além do bicho humano, enfrentou outras pragas.

Vauthier estranhou o “bicho do pé”, que desconhecia em Paris. Sobre os insetos brasileiros, anota: “Decididamente esses animais me cosideram uma presa fácil. Sua amizade por mim me lisongeia, porém me é pouco agradável. Acontece o mesmo quanto aos carrapatos, espécie de piolho de árvore, muito comum no mato.

Estava coberto deles. Extraí das mãos e dos braços dois ou três que já tinham enfiado a cabeça em minha carne e ali estavam agarrados muito solidamente. Até os mosquitos, tão insignificantes, tão desprezíveis, tomam-me como alvo. Acham, segundo parece, minha carne tenra e minha pele macia. Muito obrigado!”.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Entrechoque de culturas

  1. Muito legal!

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