Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

O brasileiro cordial

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Sobre a afirmação de Sérgio Buarque de Hollanda, em “Raízes do Brasil”, de que o brasileiro é um homem cordial, muito já se escreveu. Para a interpretação mais simplória, o texto é citado como constatação de que no Brasil prevalece a ternura, a simpatia natural, a espontaneidade fraterna entre as pessoas. Será que é mesmo assim? O engenheiro Louis Leger Vauthier, cujo “Diário Íntimo”, escrito entre 1840 e 1846 acabo de ler, encontrou sinais outros no Recife.

 

O tratamento dispensado aos escravos não era aquela bondade que tenta distinguir a escravidão do Brasil e de outros países. Diz o francês ter ouvido de uma senhora o que ela fazia ante a desconfiança de um furto: “Mme. S. nos contou que sua negrinha lhe roubou seis vinténs e ela amarrou-lhe as mãos e espancou-a ela própria a chicote!!! levantando-lhe a roupa!!! sem nenhum constrangimento!!! diante dos filhos!!! O mais velho deles observou que o posterior da negrinha não era mais bonito que o de um cavalo, quando levanta a cauda. Poder-se-ia praticar coisas semelhantes, em um momento de excitação e envergonhar-se delas, mas confessá-lo… Que mulher! que alma!”.

 

Mais adiante, fala sobre a ameaça de morte que pairava sobre ele, jovem francês culto e sedutor: “Alguns fatos sobre os hábitos assassinos do país: fora de sua profissão, os assassinos são excelentes pessoas, bons amigos, bons pais e bons maridos. Seriam capazes de se deitar em um monte de ouro sem tocar nele, mas desde que estejam pagos para praticar um assassinato, executam a coisa sem hesitar. A punhalada neste país não é dada no peito, mas no baixo ventre, de baixo para cima. É ainda mais perigoso e deve causar uma sensação bem desagradável. Aconselharam-nos a empregar um homem já recomendado pelo Cônsul e que assassina em caso de necessidade, para defender os amigos”.

 

Menciona a trivialidade das mortes provocadas por maridos ciumentos, à menor suspeita de traição por envolvimento passional. E termina: “concluo que um homem de bem, de coragem, deve caminhar em linha reta procurando poupar o mais possível os interesses marginais, mas sem se inquietar por demais com essas histórias de assassinato, senão a título de aviso”.
Ele não foi morto. Voltou à França em 1846. Ainda bem que hoje tudo é diferente no Brasil.
José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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