Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

De canoa a Buenos Aires

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Em 6 de julho de 1916, os irmãos Augusto e Gregório Prates da Fonseca partiram em uma canoa com 7,80 m de comprimento por 1,40 m de largura e 70 cm de calado, para uma viagem do Tietê a Buenos Aires. Usaram vela, remo e varejão e chegaram à capital argentina em 17 de outubro de 1916. O relato dessa aventura se fez mediante anotação num diário, depois convertido no livro “De São Paulo a Buenos Aires no Bandeirante”. Este o nome do barco.

A publicação é de 1917 e se fez pela seção de obras do jornal “O Estado de São Paulo”. Interessante a notícia fornecida ao jornal por Tito Prates da Fonseca, irmão dos aventureiros, de que na cidade de Posadas, a Prefeitura reteve o barco, pois estava sem documentação. Foi o então Secretário da Justiça, Eloy Chaves, que propiciou a continuidade da viagem, transmitindo informações e ordens ao Vice-Cônsul brasileiro na Argentina.

Como ambientalista, lamento que já não existam mais as “7 Quedas”, que os irmãos Prates da Fonseca asseguravam ser muito mais imponentes e fascinantes do que as quedas do Iguaçu. Não foi apenas o espetáculo das águas que a cupidez destruiu. Condenou-se enorme diversidade de fauna e fragmento importante da Mata Atlântica. Também fiquei impressionado com a matança efetuada pelos excursionistas, pelo mero prazer de matar.

Onças, macacos, lontras, aves, tudo servia de alvo para os jovens bem armados. Também já existia a maldita queimada. Houve períodos em que o barco nem podia continuar viagem, tanta a fumaceira dos incêndios. Queimadas de dia e de noite. Ouçamos a narrativa autêntica: “Não nos foi possível dormir. A noite sem luar era iluminada pelo clarão das queimadas cuja fumaça produzia, no firmamento estrelado, largas manchas de negrume.

De quando em vez um estrondo formidável, acompanhado de um clamor estrepitoso, anunciava que o fogo, lambendo a massega, destruindo tudo, conseguira derrubar um desses gigantes das florestas que, dando em terra, fazia estremecer a mata e os arredores. Antas, veados, capivaras e pacas fugiam, num correr desesperado, ao colossal brasileiro ateado pelas locomotivas da Noroeste. Belo, majestoso, desolador!”. Como se vê, o fogo vinha e continua a vir de todo o lado!

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “De canoa a Buenos Aires

  1. Essa narrativa remeteu-me as férias rurais da minha infância. Residindo em S. Paulo desde dos dois anos de idade, sempre viajavamos para o interior nas férias escolares. Lembro-me do trem que partia da estação da luz às 21 hrs para chegar ao nosso destino 12 hrs depois, já próximo a divisa com Mato Grosso do Sul.
    Como era bom o sanduíche de mortadela, acompanhado de refrigerante quente (mentira!), e ver a vasta paisagem da janela. Naquela época havia uma mata bem densa durante quase todo o trajéto, muitas árvores e não raro avistavamos várias espécies de animais dentre as folhagens (pacas, veados, tatus e muitos pássaros). Havia sim vários pontos com plantações de café, milho e arroz mas o verde das matas imperava sempre na paisagem.
    Hoje já não vou mais de trem, vou de carro. Também já não vejo mais tantas matas, pois estas se resumiram em pequenas moitas isoladas no meio dos grandes pastos. O verde que hoje predomina na paisagem é o dos laranjais, seringais e da cana-de-açucar. Alguns rios sumiram e os animais, bom, eu os vejo ainda nos catálogos de espécies ameaçadas de extinção.
    E a fumaça dos tempos da canoa a Buenos Aires continua. Mês de maio é uma tortura face a densa fumaça das queimadas de cana-de açucar, prática rudimentar que a tecnologia ainda não conseguiu eliminar dos nossos campos.
    Daquela época a única coisa que não acabou e posso ter a qualquer momento são os sanduíches de mortadela e o “bendito” refrigerante quente, embora não sinta nem um pouco de saudades desta parte da história. Já da outra…sem palavras!

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