Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Azar dele, sorte nossa

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Quem aprecia o lirismo não desconhece Gonçalves Dias, considerado o maior lírico brasileiro. Não tivera ele sofrido mal de amor e não teríamos algumas das mais belas poesias em português. Ao se visitar o Templo Positivista da rua Benjamin Constant no Rio de Janeiro, vê-se o retrato de uma senhora de preto, olhar triste, que impressiona o visitante. Ela tem importância na vida de Gonçalves Dias.

É Lourença Ferreira Vale, que recusou a mão da filha Ana Amélia ao grande poeta. Em 1851, numa viagem a São Luís, Gonçalves Dias se apaixonou por uma conterrânea, cunhada de um amigo seu. Escreve uma carta à mãe, pedindo a filha em casamento. E recebe, também por carta, uma recusa seca. Qual a razão da repulsa? A condição de bastardo e mestiço? Foi a versão propalada em São Luís. 

A família de Ana Amélia oferece outra. Gonçalves Dias ficara doente e o médico Carlos Fernandes Ribeiro, que era também o de D.Lourença, reconheceu que ele estava tuberculoso. Alertou a família e isso motivou o “não” ao pretendido matrimônio. Gonçalves Dias sofreu, mas assimilou a resposta. Casou-se com Olímpia, filha do Dr. Cláudio Luís da Costa. Ana Amélia, embora apaixonada por Gonçalves Dias, passa a namorar o comendador Domingos da Silva Porto, comandante da Guarda Nacional e, nada obstante os títulos, a família se opõe ao casamento. 

Por que? Domingos é apenas um mestiço, neto de uma escrava. Domingos, ao contrário de Gonçalves Dias, não se conforma com a reação da família. Rapta a namorada e casa-se com ela. O pai a deserda em cartório e diz o motivo: ter Ana Amélia se casado com o neto da preta Eméria, antiga escrava do coronel Antonio Correia Furtado de Mendonça. Gonçalves Dias encontrou-se depois com Ana Amélia em Lisboa, batida pelo infortúnio, deserdada pela família, castigada pelos preconceitos do Maranhão.

Mas nunca se esqueceu do poeta. Um retrato justifica plenamente essa paixão. Alta, cabelos penteados para trás, toda de preto, apóia a mão esquerda  sobre a lombada de um pequeno livro: os “Cantos” de Gonçalves Dias, na edição de Leipzig, exatamente aquele em que o poeta publicou o “Ainda uma vez, adeus”. No final da vida, costumava repetir a quem conversava com ela: “Meu filho, eu fui amada pelo maior poeta do Brasil!”

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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