Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Goethe e Gonçaves Dias

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Há um discurso persistente em nossa era: a urgência da especialização. O especialista é necessário, mas pode se tornar aquele que sabe cada vez mais sobre cada vez menos. Por que não cultivar também a vocação poliédrica? Desenvolver várias aptidões. Poder variar quando quiser?

Ciência, por exemplo, não é incompatível com poesia. Até o cientista precisa sonhar.
Gonçalves Dias, o poeta de “Ainda uma vez, adeus!”, soube conciliar o homem de letras com o homem de ciências. Tanto que Josué Montello o comparou a Goethe, “o derradeiro homem universal, na linha do modelo renascentista de um Miguelângelo ou um Leonardo da Vinci, para os quais a arte, nos seus valores mais puros e mais profundos, não bastaria como expressão de inquietude intelectual: ambos saíram da arte para a técnica, e desta para os domínios da ciência, impelidos pela ânsia de saber e de criar”.

Gonçalves Dias foi nomeado pelo Governo Imperial em 1861, para chefiar a Seção Etnográfica da Expedição Científica encarregada de estudar as riquezas naturais do Norte do Brasil. E desincumbiu-se a contento. Chefiou os estudos etnográficos e redigiu a narrativa da viagem. Era amigo de Martius, com quem conviveu na Alemanha. O lirismo não o impediu de produzir textos da maior consistência científica. Assim o estudo comparativo entre os índios brasileiros e os da Oceania, um ensaio sobre as amazonas no Brasil, os verbetes do Dicionário da Língua Tupi publicado em Leipzig. Tanto fez, que Roquette-Pinto afirmou: “a não ser Rondon, ninguém enriqueceu mais as nossas coleções etnográficas do que Gonçalves Dias”.

Elaborou relatório sobre as escolas públicas de primeiras letras nas freguesias do Solimões, escreveu Viagem pelo Rio Amazonas, Cultura do Algodão e do tabaco e muitas outras obras verdadeiramente científicas. Seus diários de viagem são preciosos.

É rara essa compatibilização entre o belo e o verdadeiro? Ou a beleza é menos verdade do que a ciência? Faz sentido fazer-se tal distinção, quando a única certeza de nossa era é a incerteza e a ciência se contradiz a cada dia?

Tudo faz lembrar Paulo Vanzolini, o erudito cientista que é reconhecido internacionalmente, mas que legou ao mundo belezas como “Ronda” e “A volta por cima”.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo e autor de “Ética Ambiental”, editora Millennium. E-mail: jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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