Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Morrer homeopaticamente

Deixe um comentário

Todos morreremos. Queiramos ou não pensar nisso, é a única perspectiva inquestionável. Alguns morrem após longa enfermidade. Outros partem de repente. Há quem se suicide. Mistério esse ainda inexplicável, de alguém vencer o poderoso instinto da autopreservação para mergulhar no ignoto. Como conceber que alguém se atire de uma altura, arremesse-se em penhascos, beba veneno, respire gás, atire contra a cabeça ou o coração, corte os pulsos ou se asfixie com envoltório de plástico?

 

Existe o suicídio a longo prazo, de quem fuma, sabendo que isso acaba com os alvéolos pulmonares e causa outros malefícios conducentes à morte. De igual forma, consumir drogas – lícitas e ilícitas –  significa abreviar o encontro com a ceifadeira. Essas as formas nítidas de se fazer a vontade atuar em direção ao ato final desta aventura humana. Pode-se pensar, todavia, em outras fórmulas de aproximação com a “indesejável das gentes”, das quais a vontade dos homens é excluída. Penso na gradual perda da memória e de outros atributos que nos tipificam, permitindo nos consideremos seres racionais. Aos poucos, aquelas lembranças vívidas e tão nítidas de acontecimentos de infância vão se esmaecendo. Feições perdem o desenho intenso e vão adquirindo opacidade. Detalhes desaparecem. Chegamos a confundir datas, nomes, fatos e circunstâncias.

 

Não adianta lamentar que a memória, antes tão ativa e desperta, hoje nos traia. Quanta vez sabemos, exatamente, quem é a pessoa, mas o nome nos foge, teimosa e sorrateiramente. Se há alguns anos punha-se a consciência a funcionar e a palavra logo transparecia, para conforto do angustiado, hoje ela demora a surgir. Às vezes, nem depois de muito tempo ela reaparece. Essa a lei cruel a que os humanos se submetem, com exceções cada vez mais rarefeitas. Consuma-se medicamento de última geração, proceda-se a exercício mnemônico, faça-se palavra cruzada ou procure se recordar de poesias. Decorar um soneto por dia era uma receita até há pouco utilizada. Nada fará retornar a lucidez e tirocínio da juventude. É a morte homeopática, a nos preparar rumo à derradeira viagem, quando os episódios terrenos cederão espaço para o encontro com o ignoto.  

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s