Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.


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Cada um com sua guerra

Mike Mullen é o Almirante Chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos EUA.  Homem considerado o mais poderoso, pois controla as forças militares do Grande Irmão norte-americano. Comandante de toda a Armada ianque e responsável pelos eventos bélicos das últimas décadas. Entrevistado por Dave Letterman, dizia que os Estados Unidos envolveram ao menos um milhão de soldados em suas guerras e que disso resultou a morte de 6 mil jovens. 

Comentou ser um sobrevivente do Vietnã e que, àquele tempo, não havia a preocupação de hoje: propiciar uma adequada reinserção de quem volta ao país após haver lutado por seus ideais e se arriscado a perder a vida. Os Estados Unidos têm justificado orgulho de seus heróis. O cemitério militar de Harlington é uma evidência de como são respeitados.

A Pátria guarda, reconhecida, a memória, o nome e a trajetória de seus filhos mortos em guerra. E em todas as últimas aventuras – Coréia, Vietnã, Iraque, Afeganistão, Paquistão – foram 6 mil os falecidos. E aqui no Brasil? Quantos milhares de brasileiros são sacrificados pelas overdoses, pelos verdadeiros homicídios no trânsito? Só entre os motociclistas, dois ou três por dia deixam a vida no caótico trânsito paulistano. 

Nem se pode mais andar de bicicleta na capital. O ônibus atropela e mata. Quantas as vidas perdidas nos confrontos entre polícia e bandido e nas lutas promovidas entre gangues? E as vítimas de assalto, as derrubadas por “balas perdidas”, as chacinas de jovens que não honraram seu compromisso com o tráfico? Suicídios continuam a ocorrer e causam perplexidade. O cigarro mata 200 mil brasileiros por ano. E o álcool, a quantos assassina? 

Os operários que trabalham em situação de insegurança e são estatísticas nos acidentes fatais? E os “encontros de cadáver”, episódios a serem esclarecidos e que nunca chegam a sê-lo? Recente greve de coveiros mostrou que São Paulo não pode parar de enterrar e de cremar, sob pena de mergulhar numa tragédia imprevisível. É a morte a rondar, implacável, a todos os vivos. Mesmo assim, o ser humano parece não aprender a viver em paz e a valorizar esse milagre gratuito que é a vida.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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Voto pela Internet

O uso da internet para exercer o direito/dever político de votar é uma ideia polêmica. Há quem acredite ser perigosa. Isso porque poderia constituir retorno à velha praxe de controle da vontade do eleitor, compelido a obedecer a outras forças, que não a de sua consciência.

 

O argumento é o de que um grupo de eleitores poderia ser reunido num só ambiente, onde uma liderança impingiria a sua vontade, não a deles. Constrangidos, esses cidadãos atenderiam à pressão e não exerceriam a sua prerrogativa com a liberdade imprescindível à lisura do processo eleitoral.

 

Esse risco ocorre, mas o cotejo dos custos/benefícios de implantação do novo sistema pende a favor deste. É que uma eleição é dispendiosa, trabalhosa, anacrônica. São utilizados edifícios públicos e particulares cuja adaptação enseja enorme trabalho e envolvimento de milhares de pessoas. Os custos são imensos. Toda a cidadania é obrigada a se locomover e a se dirigir ao local de votação. E não está  excluída a possibilidade da fraude. Idêntica pressão pode ser exercida sobre as pessoas mais vulneráveis e subordinadas por vínculos de qualquer ordem aos desejosos de dirigir as eleições aos seus fins particulares.

 

Alguém propenso a ser conduzido por mãos alheias não precisa ser confinado para ceder. O será de qualquer forma, independentemente de estar sob a mira do opressor. 
Ora, se a comunicação virtual está a servir para atos da maior importância, quais os da vida financeira, sem gerar a menor resistência, por que não serviria para o exercício do dever político por excelência?

 

O processo político no Brasil é confiado à Justiça Eleitoral. Esse serviço público ofereceu resistência à realidade informática, mas aos poucos aprendeu a confiar nela. Hoje já se recebem petições enviadas por e-mail, inclusive iniciais e hábeas corpus. Já existe uma Justiça Virtual em pleno curso, até mesmo no Estado de São Paulo, o mais infenso a admitir tais inovações.

 

Os Tribunais Eleitorais poderiam adotar todas as cautelas, de maneira a eliminar ou atenuar as vulnerabilidades do novo sistema. Com isso, viabilizar-se-ia imensa economia de recursos e de tempo, habilitando-se a cidadania a fazer chegar a sua vontade de forma rápida, pouco dispendiosa e efetiva, naquilo que dela se exige para a mais adequada gestão da coisa pública.  

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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Vácuo afetivo

Aos poucos, vamos enterrando as pessoas queridas. Já perdi irmão caçula, o João René, meu pai e minha mãe. Antes disso perdera avós. Sem falar de tios, primos, sogro e cunhado, além muitas outras figuras que residem no melhor recôndito do território do afeto. Procuro ser fiel cumpridor dos ritos fúnebres. Há quem diga não gostar de velórios, enterros, cremações ou missas de sétimo dia. Não se tem de “gostar”. O importante é estar presente para um abraço. Palavras não são necessárias. 

Aliás, é dispensável e inócuo falar-se nessa hora. Não existe o que dizer. O caminho da morte é aquele que todos percorremos, desde o nascimento. Por pensar muito na “indesejável das gentes”, até escrevi um livro: “Pronto Para Partir?”, onde me confesso ainda não estar pronto. Mas em vias de preparação. Quando minha mãe era viva, ela me telefonava para contar quem havia sido chamado à eternidade.

Já não tenho mãe. Sou órfão e descobri que orfandade não tem idade. Por isso é que nem sempre consigo honrar meus compromissos de amizade. Fico sabendo das mortes mediante leitura atrasada do JJ. Fiquei muito triste com o passamento de Fernanda Perracini Milani, a quem tanto amava. Mulher culta, sem afetação. Erudita, alma e vocação de artista, muito fez por Jundiaí e com ela trabalhei nos vários Encontros Jundiaienses de Arte. 

Também no setor artístico perdemos Semíramis Rosa Mojola, tão prolífica na criação de disputadas esculturas. Soube muito tempo depois da morte de Lourdes Lotierzo, irmã de minha querida e saudosa amiga Eloisa. Pessoa empenhada em causas nobres e verdadeira cultora da caridade cristã. Minha professora Branca Paulielo Conde e D. Eunice Fraga de Novaes. A inolvidável Luzia Pimenta de Pádua. O que dizer delas? Lamentei a morte de Cida Campaz e de sua filha Silvia.

Tragédia que abalou o melhor da Jundiaí tradicional que aos poucos desaparece. A coleção de mortes é adicionada pelo falecimento de Neusa Lemos de Mello Barroso e, mais recentemente, de D. Helena Bertuzzi, que era prima de minha mãe. Sem falar no grande amigo Wadih Helu, a quem devo tantas delicadezas e, com certeza, estou a me olvidar de outros que partiram e deixam um vácuo impreenchível nos nossos corações.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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Mergulho no tempo

Quem viveu a década de sessenta do século passado é uma geração que tem bastante o que contar. 1968 foi um ano emblemático. Houve a rebelião dos estudantes em Paris, sob a liderança do jovem Cohn-Bendit, mas aqui no Brasil ocorreu a edição do AI-5. Liberaram-se os costumes, a pílula anticoncepcional permitiu um desenvolto comportamento às mulheres. O mundo realmente mudou. 

Mas éramos embalados pelos festivais de música da Record, quando surgiram Jair Rodrigues e Ellis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, Maria Bethânia e Gal Costa, Nara Leão e Maria Odete. E tantos outros cujas composições nos embalaram e fizeram tanto bem. Surgiu ainda a “Jovem Guarda”, com Roberto Carlos, Erasmo e Wanderleia, Wanderley Cardoso e tantos outros. Quem não se recorda deles? Na era “vintage”, em que as saudades são institucionalizadas, todos assistimos a uma revisita dessa época. 

Pois também tive a oportunidade recente de uma noite bem interessante e que me acalentou a alma. Não foi um programa televisivo, nem um show para o qual se venderam ingressos. Meu amigo Luiz Aguiar inaugurou uma dependência em sua casa no Morumbi, para a qual convidou muitos daqueles que acompanhamos em sua vida artístico-musical. Lá estavam Jair Rodrigues, que cantou a “Disparada” e também o “Upa neguinho” e aquela música “deixe que falem…”. 

Também Sérgio Reis, que está afinadíssimo com sua esposa e recordou vários sucessos. Mas também Luiz Ayrão, Nalva Aguiar, Marthinha e tantos outros. O clima era de amizade fraterna, cada qual oferecendo o seu melhor para reviver uma era na qual éramos felizes e sabíamos disso. Lembrei-me daqueles festivais do Clube Jundiaiense, em que brilhavam – só para falar nos que já partiram – Delega e Gilberto Fraga de Novaes, Antonio Carlos Oliveira Mello, o “Melinho”, um dos fundadores do “All Anthonys”, depois “Napões”.

Flavinho Della Serra, com a participação daqueles que, se não cantavam, ao menos encantavam com sua presença bonita – Sarita Rodrigues Oliveira, Bidu Franzini, Sérginho Costa, Lúcia D´Egmont. Lembrei-me de todos eles e de muitos mais, ao som de quem cantou por prazer e para agradar amigos. Doação espontânea, que já quase não existe mais.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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Significado da celebração

Ao consultar os léxicos para apreender o significado de “celebração”, encontramos o ato ou efeito de celebrar, uma realização solene ou homenagem – no sentido de memoração – de acontecimento, data ou pessoa. Mas também louvação pública, enaltecimento. Por metonímia, celebração também significa o ofício religioso ou sacramento. Hoje, 30 de junho de 2011, ainda que sem rituais ou exteriorizações, celebro no recanto mais íntimo da memória, os 90 anos de nascimento de minha mãe, Benedicta Barbosa Nalini. 

Viva como nós fora ela e – sem dúvida – faríamos uma festa. Seus últimos anos de vida, mais a partir dos 70, foram comemorados. Fazia questão de receber as pessoas que amava. E também vetava aquelas das quais não gostava. Nunca foi falsa. Transmitia as suas simpatias e não fazia questão de esconder as antipatias. Devo tudo a ela. Se algo de bom ainda tenho, foi porque segui suas lições. 

O lado mau foi por não tê-la escutado. Incutiu-me o valor da leitura. Continuo um viciado em livros. Ensinou-me a persistir. A saber o valor do sacrifício. A cultivar amizades e a virtude da gratidão. Sua tábua de valores se mostra cada dia mais imprescindível e urgente, no mundo em que se cultuam as superficialidades. Era a minha consciência mais severa. Cobrava-me atitudes. Ainda hoje, quase seis anos depois de sua partida, surpreendo-me a escutá-la. 

O que diria sobre as opções que tenho de tomar? Qual seria seu conselho diante dos desafios que a vida oferece a quem continua vivo? Minhas duas paixões intelectuais e que logrei conciliar com a profissão – ética e natureza – derivam de seu desvelo. Corajosa, enfrentou dificuldades e estimulou marido e filhos a encararem a existência com destemor. Sábia, antenada, enxergava longe e sempre esteve muito adiante de seu tempo. 

Quantas vezes a vida me propiciou encontros com a erudição mais festejada e constatei que ela se encontrava anos luz distanciada da verdadeira sapiência. Aquela que minha mãe encarnou. Não tinha defeitos? Tinha, era humana. Um deles: não conseguia perdoar a quem feria seus filhos. Mas mesmo com estes era justa. Só não os privilegiava com o imenso território de amor que era o seu coração: generoso, aberto, com a vocação genética de acolhimento e abrigo.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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O que desandou no mundo?

A pergunta poderia ser: o que está errado no mundo? Pois as pessoas se esqueceram do que é essencial para se ancorar no superficial. A natureza é sábia. Nenhum de seus entes – à exceção do homem – dela retira mais do que o necessário para sobreviver. Um jacarandá não esgota os nutrientes da terra. Desta extrai somente o imprescindível para crescer e se conservar. O leão não mata todas as gazelas. Mata uma, quando tem fome. Todos sabem que dependem da continuidade da vida para subsistir.

O homem, não. Pretensioso, cheio de si, destrói toda uma floresta. Acaba, por atacado, com uma obra que levou milhões de anos para existir. São suficientes alguns minutos e o uso de uma motosserra para acabar com esse tesouro.

Poucas pessoas têm consciência do descalabro. Chegam a ser hostilizadas, pois consideradas “inimigas do progresso”. Quando a felicidade não se avalia na vertical. Não é juntando dinheiro que se consegue ser feliz. A felicidade é horizontal. É estar bem consigo mesmo. Ninguém consegue estar bem num deserto. Sem água, sem vegetação, sem biodiversidade. Santo Agostinho já recomendava que não se juntasse mais do que o necessário para subsistir. O restante é de ser entregue a quem precisa mais do que a gente. Quem se satisfaz com o essencial? 

Será que a vocação da espécie humana é competir? Na competição desenfreada em todos os níveis, as pessoas crescem espiritualmente? São mais felizes? Tornam-se melhores? São dignas de serem consideradas celebridades?

Pobre destino desse verbete: “celebridade”! Deveria lembrar a celebração de pessoas capazes de belos gestos. Primícias da raça humana. Aquelas que se destacassem por seu crescimento em graça e sabedoria, em atributos que merecessem cópia. Hoje, celebra-se o nada, o vazio, o mau exemplo, a desfaçatez.

Algo vai muito mal na face da Terra. Lembra-me a busca por alguém digno de se salvar, antes da catástrofe. Será que entre os líderes, os poderosos, as “celebridades”, conseguiremos lotar uma arca, para que sirvam como semente da “nova humanidade”?Quem se arrisca a relacionar os ocupantes da próxima arca, que bem poderá ser uma nave espacial? 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.


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Onde está a felicidade?

A cultura nos ensina a competir. Somos todos concorrentes e postos a um treino incessante para “vencer na vida”. E o que significa “vencer na vida”? Ter bens para mostrar. Sorrir continuamente. Aparentar juventude, beleza, magreza, tudo isso revestido pelas grifes mais caras. Pouco se indaga a respeito das condições interiores. Como está a “cabecinha” dos seres ligados no supérfluo? São capazes de se autodefinir? Estão, realmente, “de bem com a vida”? 

Um famoso diretor do cinema hollywoodiano, Tom Shadyak, ficou milionário em pouco tempo. Descobriu o filão das comédias e se serviu de Jimmy Carrey, Eddie Murphy e outros astros para produzir filmes nos quais ganhava 8 milhões de dólares para produzir, mais uma percentagem do êxito nas bilheterias. Comprou casa de 740 m² e depois outra de 1.200 m², fretava jatinhos antes de possuir o seu, fazia festas nababescas e possuía todas as mulheres que alguém pode desejar.

Começou a se questionar se era essa a vida com que sonhava. Sentiu-se vazio. Num passeio de bicicleta, acidentou-se e, vítima de concussão, passou a ter alucinações. Tinha de dormir dentro de um armário. Quando se curou, mudou de vida. Foi morar numa casa pré-fabricada, em Malibu. 92 m² são hoje o suficiente para abrigar tudo o de que necessita. Não usa carros, a não ser excepcionalmente. Locomove-se de bicicleta. Fez um documentário, chamado “I Am” (Eu sou!), extraído de palavras divinas no Velho Testamento. 

Descobriu que ser feliz é precisar de pouco e viver intensamente suas paixões. Todo aquele que faz o que não gosta, só pensando em alcançar bens materiais, morre um pouco todos os dias. Imersos na cultura competitiva, fazemos aquilo que se espera de nós, “engatamos uma primeira” e vamos em frente, automaticamente. 

Sem perguntar àquela criatura esquecida que mora dentro de nossa consciência, se é isso mesmo o que ela gostaria de fazer. A maioria poderá considerá-lo louco. Mas essa loucura não é senão um raríssimo episódio de retomada da lucidez. Quem é que terá coragem de conservar o mínimo e de repartir o que obteve – sabe-se lá como, até por trabalho honesto – com os mais necessitados?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.