Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

A cidade dos invisíveis

Deixe um comentário

Cidadania é um verbete largamente utilizado em todos os discursos. Para Hannah Arendt, a cidadania consiste no direito a ter direitos. Significa um conjunto de atributos que, em síntese, permite ao indivíduo atuar na gestão da coisa pública. A Constituição de 5.10.1988 foi chamada “Cidadã”, justamente porque enfatizou os direitos derivados dessa condição básica de influenciar a condução da política. Vive-se hoje apenas na cidade. Se na primeira metade do século XX a população era eminentemente rural, na primeira década do século XXI ela é hoje prioritariamente urbana.

 

Os camponeses abandonaram a zona rurícola e vieram para a cidade. Os campos são apropriados pelas grandes empresas do agronegócio. A vocação paulista do minifúndio cede espaço aos imensos canaviais. E como é a vida do campesino aqui na conurbação? Alguns foram absorvidos em novas atividades. Mas muitos não encontram espaço para subsistir com dignidade. Aumenta a legião dos excluídos, daqueles que não conseguem ocupação lícita, não têm onde morar, sobrevivem quais verdadeiros párias.

 

Somem-se a eles os que foram contaminados pela droga. Embora com esse nome, as substâncias causadoras de dependência parecem ganhar seguidas batalhas da guerra contra elas movida. Cada vez mais novos os usuários de estupefacientes. Crianças começam a usar crack e a cada semana surgem novas fórmulas para baratear o consumo e, simultaneamente, para gerar maior escravidão. Os moradores de rua ocupam todos os desvãos e pouca gente se sensibiliza ante o fato de ser obrigada a se desviar de indivíduos deitados nos passeios, em plena luz do dia.

 

O lumpezinato ambulante faz com que muitas de nossas urbes tenham uma aparência de “Blade Runner”, guardadas as devidas proporções. Há muita gente invisível nas cidades brasileiras e para essa parcela da população não existe política pública eficiente. A administração pública não consegue cumprir todas as suas promessas e se vê envolta em reconhecido déficit. Não existe perspectiva de correção de rumos e não se pode continuar a afirmar que o Brasil esteja realmente a progredir, se não vier a enfrentar com seriedade e consistência o problema dos invisíveis.  

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

Anúncios

Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s