Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Ritual de flagelos

1 comentário

A expressão é de Drauzio Varella, quanto a uma viagem que fez a Santa Catarina, para analisar um programa de vacinações contra a hepatite B. A menção se fez ante o caótico estágio dos aeroportos brasileiros. Diz ele: “Previsto para chegar pouco depois da meia-noite, o avião aterrissou às 4h, de modo a cumprir o ritual de flagelos a que são submetidos os infelizes como este que vos escreve, forçados a viajar pelos ridículos aeroportos brasileiros”. Ridículos, mesmo.

Os voos são cancelados, atrasados, o passageiro enfrenta filas e é tratado como gado. Por isso é que o sonho de consumo dos que já atingiram uma situação financeira que os libera do sacrifício é ter um avião só para eles. Tanto na visão macro – o panorama geral dos aeroportos e da aviação brasileira – como na vertente micro – os problemas enfrentados pelo cidadão, a coisa vai mal. Muito mal. Começo pelo micro. Tive a sorte, outro dia, de obter uma carona vindo de Brasília. 

Tomei a cautela de devolver o meu ticket e de avisar à funcionária que não iria viajar. Ela me disse que estava tudo em ordem. Não consegui por e-mail ou telefone resolver o problema. Fui pessoalmente à agência, preenchi papéis. Queriam que eu provasse que não viajei… Finalmente, obtive promessa de devolução do dinheiro depois de 30 dias, com o desconto da multa. Segundo caso: quis oferecer minha milhagem para um filho e não consegui. 

Tive de comprar a passagem dele. Milhagem agora é miragem? No plano macro, não preciso falar muito. Não há aeroporto que funcione no Brasil. Dá vergonha quando se assiste ao espetáculo deprimente de estrangeiros do primeiro mundo nas filas de operação tartaruga, no apalpa-apalpa, no empurra-empurra, na desarrumação das bagagens, nos atrasos e nos cancelamentos. 

É este o país que quer fazer a Copa em 2014 e as Olimpíadas em 2016? Bem faria o governo se deixasse a empresa privada trabalhar em paz. Tudo o que ele faz é mais caro, a qualidade é inferior, a lentidão exaspera, a corrupção se escancara. Se o Poder Público não atrapalhasse, até que o Brasil poderia recuperar o tempo perdido e atravessar o fosso que o separa da civilização.

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Um pensamento sobre “Ritual de flagelos

  1. “Dá vergonha quando se assiste ao espetáculo deprimente de estrangeiros do primeiro mundo nas filas de operação tartaruga (…)
    Em minha opinião este comentário foi infeliz. Demonstra subserviência aos estrangeiros – não qualquer estrangeiro, mas aquele do primeiro mundo. O senhor é viajado e sabe que em Paris há filas e filas no Charles de Gaulle, onde perde-se horas. Bem como em Barcelona não há conforto ao passageiro e em tantas cidades do primeiro mundo. Que o Brasil precisa melhorar – e muito – sua infra-estrutura, é certo, mas este tipo de comentário parece-me alheio à realidade que os viajantes brasileiros ou não enfrentam no exterior.

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