Blog do Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

Nossa arte é ferro velho

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Não reclamem! A frase é de Proudhon, que passei a conhecer pela frase “toda propriedade é um roubo”, inserta por Dalmo de Abreu Dallari no livro de Teoria Geral do Estado de que me servi para lecionar. Pierre-Joseph Proudhon (1809-1863) não foi só um reformista da sociedade política. Escreveu um livro Dos Princípios da Arte e de sua destinação social, obra interrompida por sua morte. Livro escrito às pressas, por um autodidata que confessou: “está acima das minhas forças, mas a coisa foi lançada e não posso voltar atrás”. 

Mas ele é provocador quando reconhece fazer parte da dignidade de um povo civilizado ter museus de antiguidades. É interessante para a história e reforça a solidariedade para com os antepassados. Mas ele condena a Cidade-Museu que, no caso, era a Paris onde vivia. Depois de criticar o obelisco de Luxor na Praça da Concórdia, ele faz a afirmação do título: 

“Nossa arte é ferro-velho. Fazemos de uma igreja um panteão de homens ilustres, inscrevemos no frontispício dessa igreja uma dedicatória usurpatória e mentirosa, pois a igreja de Soufflot foi dedicada a Santa Genoveva, é a segunda catedral de Paris. Em compensação, convertemos o templo da Glória, paralelogramo copiado dos gregos, em uma pretensa igreja (a Madalena), sem sinos, sem capelas, sem relógio, sem forma cristã. O conjunto de nossos monumentos denota um povo cuja consciência está vazia e cuja nacionalidade está morta. 

Não temos nada na consciência, nem fé, nem lei, nem moralidade, nem filosofia, nem senso econômico, mas ostentação, pura arbitrariedade, contra-senso, falsa aparência, mentira e volúpia”. Depois ele lamenta que fortunas sejam gastas em obras públicas, quando o povo não tem onde morar. “Nós apertamos o cinto e, na falta do que comer, alimentamo-nos com espetáculos”. 

A obra-prima política seria oferecer moradia ao sem-teto. Quem era o culpado? Para Proudhon, “artistas, professores e sacerdotes, acadêmicos e filósofos, todos cumprem igualmente mal seu dever, converteram-se em instrumentos de miséria e de depressão”. Ele falava de Paris, em meados do século XIX. Algum progresso na primeira metade do século XXI? O que diria Proudhon de nossas cidades?

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

 

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Autor: Renato Nalini

Secretário da Educação do Estado de São Paulo, Imortal da Academia Paulista de Letras e Membro da Academia Brasileira da Educação.

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