Blog do Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

Os entraves humanos

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Ninguém há de negar que favela, cortiço e loteamento clandestino fogem ao padrão de beleza imposto pelo consumismo imperante. Por isso é que a escala contemporânea de remoção populacional é imensa. Todo ano, centenas de milhares, às vezes milhões de pobres – tanto os que têm posse legal, como invasores – são despejados à força de espaços do Terceiro Mundo. Os pobres urbanos são nômades, moradores transitórios num estado perpétuo de realocação. São considerados “entraves humanos”, escória da sociedade, lixo social que deve ser extirpado dos olhos sensíveis dos afortunados.

 

Mas isso não resolve o problema dos ambulantes, dos mendigos, dos “moradores de rua”. Por enquanto, prevalece o fracasso dos mecanismos de mercado, da assistência e promoção social e mesmo da segurança privada, que não conseguem impedir essa invasão de pobres. Quem é que consegue limpar, construir e defender ilhas de cibermodernidade em meio a necessidades urbanas não atendidas e ao subdesenvolvimento em geral? Em alguns círculos, a palavra infraestrutura é o novo codinome da eliminação sem cerimônia dos frágeis abrigos dos pobres.

 

O fenômeno encontra-se em vias de recrudescer no Brasil da Copa de 2014 e da Olimpíada de 2016. É legítimo o temor dos pobres ante os eventos internacionais de alto nível. As autoridades são legitimadas a iniciar cruzadas de limpeza da cidade. Os favelados sabem que são a sujeira ou a praga que seus governos preferem que o mundo não veja. E o mundo é mesmo assim. Durante a comemoração da independência nigeriana em 1960, um dos primeiros atos do novo governo foi murar a estrada até o aeroporto para que a princesa Alexandra, representante da rainha Elizabeth, não visse as favelas de Lagos.

 

Hoje é mais provável que os governos melhorem a paisagem das cidades onde a Copa terá lugar mediante outras táticas. Ou será que vai dar tempo de construir um muro entre Cumbica e São Paulo e depois de São Paulo até o Itaquerão, para que os estrangeiros não vejam a fealdade da zona leste? Vasta mancha pobre e cinza, sem verde, sem estilo, sem atenção do Poder Público?

 

José Renato Nalini é Desembargador da Câmara Especial do Meio Ambiente do Tribunal de Justiça de São Paulo. E-mail:jrenatonalini@uol.com.br.

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Autor: Renato Nalini

Ex-Secretário de Estado da Educação e Ex-Presidente do Tribunal de Justiça de São Paulo. Ex-Presidente e Imortal da Academia Paulista de Letras. Membro da Academia Brasileira de Educação. Atual Reitor da UniRegistral. Palestrante e Conferencista. Professor Universitário. Autor de dezenas de Livros: “Ética da Magistratura”, “A Rebelião da Toga”, “Ética Ambiental”, entre outros títulos.

2 pensamentos sobre “Os entraves humanos

  1. Antes fosse um problema apenas de estética.

  2. Os subúrbios do Rio de Janeiro são a mais curiosa coisa em matéria de edificação de cidade. A topografia local, caprichosamente montuosa, influi decerto para tal aspecto, mais influíram, porém, os azares das construções. Nada mais irregular, mais caprichoso, mais sem plano qualquer, pode ser imaginado. As casas surgiram como se fossem semeadas ao vento e, conforme as casas , as ruas se fizeram. Há algumas delas que começam largas como “boulevards” e acabam estreitas que nem vielas; dão voltas, circuitos inúteis e parecem fugir ao alinhamento reto como um ódio tenaz e sagrado.

    “Triste fim de Policarpo Quaresma”(Lima Barreto)

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